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Fotógrafo (a) de alimentos: especialidade em expansão que vale o conhecimento e o investimento

Mercado cresceu com a digitalização dos canais de venda e dos meios de comunicação do Food Service

Foto: Getty Images

 

Você já conhece a expressão popular de que “uma imagem vale mais que mil palavras”, de autoria do filósofo chinês Confúcio, certo? Quem trabalha com alimentação, não só conhece o ditado, como vive com ele na prática diariamente. Com a digitalização dos canais de venda e dos meios de comunicação, também dos negócios de Food Service, a qualidade das fotos e dos recursos de imagem utilizados, ganharam ainda mais importância.

 

De acordo com o Anuário da Fotografia 2020, a fotografia voltada à publicidade foi a quinta especialidade mais praticada por fotógrafos profissionais mesmo em meio à atual pandemia de Covid-19. Sendo válido ressaltar que esse anuário é um projeto especial realizado pela Alboom, plataforma líder em soluções para fotógrafos e criativos, e o FHOX, o maior portal de fotografia em língua portuguesa, com o propósito principal de inspirar e mostrar o melhor do mercado fotográfico. “O Anuário da Fotografia surgiu com a visão de organizar e tornar acessíveis informações sobre o mercado da fotografia, com o foco em ajudar profissionais e empresas a crescerem e gerarem valor, com consciência e visão de sociedade. A fotografia profissional está mudando muito e precisamos de uma nova checagem de realidade. Em sua última edição, em 2020, o questionário foi melhorado e atualizado para trazermos informações ainda mais relevantes para entendermos tanto o presente, quanto o futuro da fotografia do Brasil”, diz divulgação relacionada no site oficial do anuário.

 

No cenário da fotografia publicitária profissional, existe a especialidade de “fotógrafo culinário” ou “gastronômico”. Esta especialidade exige, além da capacidade técnica do profissional, conhecimento específico sobre o assunto e muito talento.

 

Para você que tem interesse em ingressar nesta área ou está começando na profissão, nós da Rede Food Service vamos te inteirar sobre o tema em uma entrevista exclusiva com 3 dos mais competentes e renomados fotógrafos com especialidade em alimentos do mercado.

 

O Fotógrafo Gustavo Arrais – Foto: Divulgação

 

Sobre ser fotógrafo de alimentos, Gustavo Moreira Arrais Neto, de 46 anos, fotógrafo há 23 com grande experiência em diferentes ramos da fotografia, com ênfase no de culinária e embalagens para grandes marcas, como Sadia, Perdigão, Unilever, Casa do Pão de Queijo e várias outras, diz que a profissão apresenta inúmeras vantagens, uma vez que “o ramo de alimentos é infinito, ele nunca acabará e sempre teremos que produzir imagens novas para um setor que é vital para o ser humano. Alimento sempre será necessário”, afirma.

 

Tadeu Brunelli – Foto: Divulgação

 

Tadeu Brunelli, de 43 anos, fotógrafo também há 23, sendo 17 com atuação no ramo da gastronomia, por usa vez, partilha que a principal vantagem da profissão fotógrafo(a) de comida “é a de estar em uma área em que a fotografia permanece sendo de extrema importância para os negócios”, garante.

 

Helena de Castro – Foto: Divulgação

 

Helena de Castro, de 43 anos, fotógrafa há 22 com praticamente o mesmo tempo na área de gastronomia, complementa que, “em 2020, já notamos um aumento expressivo de produção de fotografia para plataformas de delivery. E, em 2021, tivemos altos e baixos, com muita incerteza em como levar projetos adiante remotamente. Mas, agora em 2022, já sinto um mercado reaquecido, focado na produção de conteúdo de vídeos (reels/tiktok) e no consumidor final, tentando, mais do que nunca, ‘falar’ a língua dele”, relata.

 

Como tornar-se um fotógrafo(a) de comida?

 

Ficou interessado (a) em tornar-se um fotógrafo (a) de comida? Então, saiba que os primeiros e mais indicados passos para quem quer trabalhar nesse ramo “é ter conhecimento da área de alimentos/alimentação e o domínio de todas as técnicas que envolvem esse tipo de fotografia. E, acima de tudo, conhecer o mercado, sem o olhar de fotógrafo. Em um segundo momento, as pessoas não podem achar que fotografar alimentos bonitos fazem portfólio, pois o que faz portfólio para quem entende de fotografia é transformar algo que não é tão bonito em algo maravilhoso. O ‘fotógrafo profissional’ que apenas documentar o que está sendo visto por ele, na área de alimentos/alimentação, é um mero digitalizador de cenários. O fotógrafo tem que aplicar a interpretação dele sobre o que está fotografando e, assim, arrancar suspiros e elogios de quem o contratou. E, por fim e mais importante, cobrar dinheiro pelo trabalho, não trocar por almoços e jantares”, aconselha Brunelli.

 

Fotografia de Gustavo Arrais

 

Arrais orienta que “para ser um bom fotógrafo, você deve aprender muito sobre incidência de luz, refração, superfícies, texturas e tudo que compõe o universo de alimentos. Fotos de alimentos é um dos maiores laboratórios para você aprender fotografia, pois você aprende a explorar todos esses pontos citados. Além disso, ter bom gosto ou, se possível, formar um bom gosto alimentando seu olhar com livros e imagens disponibilizadas nos meios digitais e, o mais importante, ter um grande mestre em sua carreira. Eu tive a oportunidade de ter vários. No ramo de alimentos, o meu mestre foi o fotógrafo Freitas. Com ele, eu pude realmente desenvolver a minha técnica e aplicar na fotografia tudo o que eu tinha visto no Estúdio Abril. Não se lance na fotografia sem ao menos ter sido assistente de algum fotógrafo que você admire, pois aprender observando foi a melhor escola de fotografia para mim. Assim, considero como os primeiros e mais indicados passos para quem quer trabalhar com fotografia de alimentos/alimentação ser assistente de um grande fotógrafo de culinária, aprender na prática. Os cursos te dão uma boa base, mas nenhum deles ainda terá a capacidade de ensinar mais do que você ver na prática, fora que, na prática, você aprende várias outras matérias que, no curso, você não terá, como, por exemplo, a maneira de lidar com clientes de vários tipos”, detalha.

 

Erick Tomas por Helena de Castro

 

Castro indica “começar e se especializar, além de não detonar o mercado baseado só em preço. Mostrar valor é fundamental. Entender os diferentes preços para os diferentes usos de imagem que o cliente vai fazer, independente do trabalho que dá para fazer tal material. Também é preciso ter paciência, ter atenção, ter ética, saber trabalhar em equipe e não ter preguiça, o que acho que vale para todas as áreas, né?”, questiona.

 

A importância do estudo para tornar-se um fotógrafo(a) de comida

 

Para além dos conselhos já passados por Brunelli, Neto e Castro de como tornar-se um fotógrafo(a) de comida, os especialistas alertam sobre a importância do estudo para uma boa atuação nesse segmento. “Faz muita diferença no mercado de novos profissionais fazer um curso de fotografia profissional. Porém, eu acho que, no Brasil, pelas pesquisas que já fiz e até participei, acho que ainda não temos cursos sérios com profissionais capacitados para formação real de profissionais. Os cursos são muito rasos, os professores, na maioria das vezes, não têm conhecimento profundo do que estão ensinando e, no final, acaba que você sai frustrado do curso, pois não recebe aquilo que foi vendido. Isso desanima muito os novos profissionais. Então, acho que o Brasil e as instituições de ensino precisam evoluir muito ainda nesse quesito, ter realmente o compromisso de entregar o conteúdo que foi vendido nas publicidades que inundam as redes sociais, prometendo transformar todos em megas profissionais de sucesso”, destaca Arrais.

 

Fotografia de Tadeu Brunelli

 

Para Castro, “toda teoria faz diferença, mas sem a prática não se tem sucesso em mercado algum. Você pode ser autodidata, mas sempre vai precisar de teoria para se especializar. O que não quer dizer diploma. Nunca um cliente me perguntou onde estudei, por exemplo, O que importa para ele é portfólio e, principalmente, resultado”, garante.

 

Fotografia de Helena de Castro para Piselli Restaurante

 

Segundo Brunelli, “não é um curso que torna um fotógrafo profissional e com o domínio das técnicas fotográficas, mas sim uma carreira estabelecida de méritos e entregas impecáveis para os que contratam um fotógrafo. Ainda tem a parte da história, onde comprar uma ‘câmera profissional’ torna uma pessoa em ‘fotógrafo profissional’. Um fotógrafo é profissional independente de ter uma câmera profissional”, destaca.

 

Impactos da digitalização na profissão fotógrafo(a) de comida

 

Assim como na maioria das áreas profissionais, o recente processo de digitalização também gerou impactos na carreira de fotógrafo (a) de comida. “A entrada dos equipamentos digitais muito somou a todos os mercados da fotografia, bem como em todas as áreas que os processos digitais se fazem presentes. É a evolução tecnológica que está em tudo ao nosso redor e só tem a somar”, considera Brunelli.

 

Conforme Castro, na área da gastronomia, a digitalização somou muito. Trouxe muito mais dinamismo e rendimento às produções de publicidade. Não ter que refazer a comida porque o queijo da pizza esfriou enquanto a Polaroid se revelava já foi um grande avanço (risos). Já o excesso de produção de conteúdo informal de receitas, esse prejudicou de certa maneira. Hoje em dia, muito menos restaurantes trabalham com fotógrafos profissionais, deixando a sua produção de conteúdo sob responsabilidade do ‘marketing’ – leia-se a pessoa que controla o Instagram da casa. Se por um lado isso faz economizar verba, por outro, corre-se o risco da acomodação. Eles não têm fotos profissionais, os veículos não dão espaço para conteúdo amador e acabam sendo menos publicados pela imprensa. Outro erro é não ter ou ter fotos ruins nas plataformas de delivery, sendo que essa é a ferramenta de decisão de compra mais importante”, argumenta.

 

Fotografia de Gustavo Arrais

 

Na visão de Arrais, “a digitalização surgiu para somar, mas, em algum momento, nós profissionais do meio não soubemos lidar com ela de uma maneira coerente e que pudesse valorizar a nossa arte. Pelo contrário! Acho que, de certa forma, a fotografia foi banalizada, pois como a qualidade não é tão valorizada hoje em dia, e digo isso por experiência própria, tudo acaba que o cliente tem a impressão que qualquer um pode realizar uma fotografia de maneira que os resultados acabam sendo medianos. Se tem uma falsa ideia de que o digital é fácil e que tudo se resolve no tratamento de imagem. Hoje em dia, você encontra fotógrafos que contratam light designers, que nada mais são do que os caras que fazem a fotografia que o fotógrafo deveria saber fazer. Então, temos várias situações complicadas a serem assimiladas e resolvidas. A impressão que tenho é que, daqui a 10 anos, voltaremos a ter a mesma qualidade que já tínhamos há 10 anos e, por causa de um fator cultural, não soubemos dar continuidade. E eu estou falando tudo isso baseado no mercado brasileiro, pois, fora do Brasil, acho que esses fatores foram bem menos impactados”, analisa.

 

Tendência do mercado de fotografia de comida

 

Ainda inspirados na missão de desvendar o que, de fato, é a profissão fotógrafo (a) de comida, Brunelli, Arrais e Castro compartilham quais são as tendências que veem percebendo nesse ramo. “A forma de atender ao cliente mudou. A dinâmica mudou. A velocidade de entrega mudou. Até a entrega final mudou. Hoje, os clientes têm necessidades diferentes. Se por um lado deixaram de investir em mídias pagas impressas de grande circulação, têm uma demanda muito maior de produção de conteúdo constante para manter a sua marca sempre na cabeça do consumidor. Além disso, por causa da pandemia de Covid-19, grandes empresas unificaram seus bancos de imagens globais, o que significa um menor gasto. No entanto, isso também as leva a ter um conteúdo com uma cara mais globalizada, mais internacional e menos original, de difícil identificação com o público. Nós só entenderemos o que isso vai causar a médio/longo prazo. Mas, obviamente, para o mercado fotográfico nacional, isso é péssimo”, assinala Castro.

 

Fotografia de Tadeu Brunelli

 

Brunelli explica que “o mercado sempre vai precisar de fotógrafos, horas mais e horas menos, mas sempre vai precisar, sobretudo no Brasil, onde não existe muita tolerância para artes digitais. O mercado internacional, diferente do Brasil, está sendo, cada vez mais, seletivo para esse tipo de trabalho, pois não existe tempo para testar, a assertividade é imprescindível. Com isso, o desafio tem sido manter os clientes e compreender que eles também estão passando pelo momento econômico mais difícil da história, saindo de períodos de lockdown e uma população que está controlando os gastos, inclusive, no que diz respeito a ‘comer fora de casa’”.

 

Emanuel Bassoleil por Helena de Castro

 

Já Castro informa que “no mercado nacional, a tendência é ser o mais real possível, ter fotos menos plásticas e mais verdadeiras, isso é uma tendência, mas ainda acho que não foi assimilada pela grande maioria. Acho que temos um tempo ainda para entender e aplicar. O mercado internacional ainda é baseado na praticidade, tem outros valores e culturas, mas acho que caminham para uma linguagem mais real e saudável, também com foco no delivery de boa qualidade. E, com a pandemia de Covid-19, as principais mudanças no ramo foram mercadológicas e de interesse dos consumidores, assim como a maneira que realizamos o job em uma diária de fotografia. Nesses últimos dois anos, todos os sets que produzi foram remotos, sem a presença física de clientes e ou criativos, por exemplo. Todos nós tivemos que aprender novas maneiras e tecnologias de produção. Tudo em respeito e cuidado a uma fase em que todos nós, sem exceções, estamos expostos a um vírus”, reforça.

 

Dicas para atuar como um fotógrafo(a) de comida

 

Por fim, Brunelli, Neto e Castro garantem que a carreira de fotógrafo (a) de comida vale pena e, por isso, generosamente, deixam dicas de atuação. “Eu acho que qualquer área da fotografia vale a pena, pois a relação de custo e retorno depende mesmo de diferentes fatores. Não existe uma tabela de valores séria para a fotografia, mesmo as grandes empresas querendo taxar esses valores baseadas no que é melhor para o financeiro delas. Comercial ou não, a fotografia é uma arte que depende do intelectual do artista e da capacidade que ele tem de fazer a entrega dentro da expectativa do cliente. Quando você faz uma gestão de carreira correta, coerente, não só baseada em publicidade enganosa como muitos prometem e não entregam o valor de sua arte, é você quem acaba ditando. Por isso, existem valores diferentes para profissionais diferentes, cabendo ao cliente querer ou não pagar o ‘valor’ e não o preço de cada um deles. Com toda certeza, são resultados diferentes. Por isso, eu entendo que essa é uma relação de budget do cliente, mas tenho convicção de que todos eles gostariam muito de trabalhar com os melhores e, muitas vezes, os ‘melhores’ nem sempre serão os mais indicados para a sua empresa, uma vez que existem vários fatores envolvidos. Temos no mercado ótimos profissionais que ainda não aprenderam a valorizar seu talento, seja por educação financeira ou até a maneira de se vender. Sendo assim, a dica que eu dou é que ame o que se faz, crie imagens, seja persistente e saiba que todo resultado tem um caminho a ser percorrido. Hoje em dia, eu vejo muitos jovens se jogando no mercado sem realmente dominar as técnicas para ser um grande profissional. Isso exige tempo! Veja só, eu, po exemplo, fui assistente por nove anos com os maiores nomes da fotografia para, depois, achar que eu era capaz de me intitular como fotógrafo. Hoje, os jovens têm milhares de facilidades que não tínhamos na minha época, mas nem por isso você precisa pular steps importantíssimos para a sua formação. Não tenha pressa, um bom período de aprendizado, eu costumo dizer que seria por volta de quatro anos, entre cursos e ser assistente de um bom fotógrafo. Ou seja, menos da metade de tempo que um jovem, na minha época, demorava para ter uma formação consistente”, divide Arrais.

 

Fotografia de Gustavo Arrais

 

Castro cita que trabalhar com fotografia de alimentos “não é barato, visto que todo o equipamento é em Dólar. Assim, o estudo e a câmera são só o começo. Há de se considerar todo o investimento em lentes apropriadas e iluminação, mas não caia na ilusão da tal ‘luz de janela’. É linda e boa para quem está começando. Porém, representa uma utopia que dura apenas algumas horas do dia e que não se tem controle sobre o resultado em uma sessão profissional. Considere ainda todo o hardware para descarregar as fotos e editá-las. Por isso, a importância de uma boa precificação. Ainda com esses altos custos, o mercado profissional vale à pena sim. Por isso, considere tudo como audiovisual. Eu praticamente não tenho mais clientes que, hoje em dia, só queiram fotos. Vídeos são o presente/futuro nesse mercado”, aconselha.

 

Fotografia de Tadeu Brunelli

 

Brunelli endossa que vale muito a pena trabalhar com fotografia de alimentos/alimentação. “Cada um tem seu custo, seja de horas trabalhadas, de equipamentos, de mão-de-obra externa, de despesas em geral. Dessa forma, a dica que eu deixo é que fotografe muita coisa feia, muitos alimentos não estéticos, muitos produtos alimentícios de forma inusitada. E, depois, apresente tudo isso para pessoas comuns, após o período do almoço e, acima de tudo, não conte a elas que foi você quem fotografou. Diga que são imagens de um concorrente e peça opiniões sinceras. Quando elas começarem a dar feedback positivo sobre as imagens, aí sim você estará no caminho certo. Não vale, em hipótese alguma, apresentar esse material em qualquer período antes das refeições. E sempre cobre dinheiro pelo seu trabalho, se não, ele nunca será valorizado. Baseie-se na opinião de quem te contrata e não na sua opinião ou de pessoas próximas, pois você trabalha para quem te paga e não para amigos, parentes ou pessoas que apenas querem te impulsionar para o sucesso. Afinal, elas podem estar te cegando da realidade”, indica.

 

E aí? Conhecer e entender com detalhes a profissão fotógrafo de comida(a) te abriu novos horizontes de como atuar no nicho de alimentação fora do lar? Então, continue nos acompanhando! Pois, aqui na Rede Food Service, te informar é a nossa prioridade!

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