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Cozinha De Casa, “Pero, No Mucho”

por Cláudio Pastor, articulista da Rede Food Service

Foto: Getty Images

 

Eu sou um apaixonado pela gastronomia. Desde criança, gostava de competir com a cozinheira da família que fazia os melhores e mais bonitos omeletes. Eu sempre perdia, mesmo assim, curtia a brincadeira pelo fato de estar cozinhando. Cozinhar e ver os rostos dos meus pais e irmãos satisfeitos com a comida que tinha ajudado a fazer, era muito satisfatório.

 

Mais velho, e depois de dar algumas cabeçadas profissionais, tomei coragem e fui trabalhar no setor de food service.  Fiz alguns cursos, trabalhei algumas noites em claro, aprendi muitas coisas sobre fluxos, matérias primas, processos relacionados ao preparo profissional de refeições e, mesmo após o trabalho, adorava testar em casa as novidades do dia a dia.

 

Eu sempre gostei de levar o lado profissional para casa, buscando desfrutar e oferecer a melhor experiência culinária possível com amigos, namoradas e, obviamente, comigo mesmo. Porém, para que isso fosse possível, tive que investir mais em utensílios e equipamentos dentro da minha cozinha. Não apenas para enfeitar a mesa mas para conseguir os melhores resultados nos pratos.  Comprei novas panelas (e bem caras!), um novo fogão (mais potente e com mais bocas), fornos mais robustos, precisos e rápidos. Investi em um processador, um “juicer”, um liquidificador melhor e melhorei a coifa. Isso sem contar na churrasqueira, na geladeira nova (mais espaçosa) e ainda sonho com vários outros “gadgets” muito usados nas cozinhas profissionais.  Concordo que muitos desse itens são puro luxo, quando vemos a real necessidade de uma cozinha domiciliar.

 

Bom, será que isso ocorre apenas comigo, que sou um aficionado por gastronomia? Na verdade, não. Muito menos agora na pandemia, quando somos obrigados a ficar em casa, redescobrimos o prazer em se sentar à mesa com a família. Claro que atualmente, mesmo estando em home-office, nosso tempo para preparar a comida do dia a dia é mais curto do que em épocas anteriores. Sem contar que diferente de boa parte das famílias do passado, raramente temos alguém trabalhando como cozinheiro(a) em nossas casas. Somos nós que cozinhamos.

 

O tempo gasto no preparo e consumo das refeições é um ponto muito importante em nossas vidas. Antes da pandemia, nos estabelecimentos que frequentávamos e agora, em casa, buscamos rapidez e praticidade naquilo que preparamos ou consumimos.

 

Mesmo mudando o local de confecção ou consumo das refeições, continuamos exigentes na qualidade gastronômica e visual dos pratos. Talvez, agora ainda mais, uma vez que o fato de se sentar à mesa com nossos entes queridos, reforça o desejo de uma experiência “Comfort”.

 

Essa “nova” fase de aumento do consumo e confecção de refeições em casa, trouxe muitos desafios aos restaurantes e demais empresas do segmento profissional, mas trouxe também algumas oportunidades.  Essas oportunidades se estendem aos restaurantes, empresas de refeição coletivas, indústria de equipamentos e, principalmente, aos varejistas (supermercados e afins).

 

Falando inicialmente da indústria de equipamentos, os “mestre cucas” residenciais buscam tecnologias mais precisas, flexíveis e fáceis de operar, para executarem seus preparos com qualidade máxima. Obviamente, com mais eficiência que no passado. Temos menos tempo para preparar a refeição em casa durante os dias de trabalho, entretanto, não abrindo mão da boa experiência. Já detectou-se uma tendência no mercado imobiliário de residências com cozinhas maiores (contrariando o que ocorre nos estabelecimentos profissionais), com áreas de convívio familiar incluindo espaços para cocção, sejam eles uma churrasqueira ou até mesmo cozinhas mais chiques e modernas. Cada vez mais, vemos famílias buscando tecnologias como fornos combinados, termocriculadores, fogões de indução, resfriadores rápidos e outros aparatos profissionais, para terem em suas casas.

 

Está cada vez mais comum nos posts em redes sociais as  pessoas mostrando, não apenas os pratos que estão degustando, mas a maneira que prepararam e onde. No ano passado, a fabricante líder mundial de fornos para cozinhas profissionais, teve quase 20% de seu faturamento no país, para ambientes residenciais. Antes, este segmento não chegava a 1%. Importante salientar que esta tendência já existia antes da pandemia, mas que está sendo acelerada com a obrigatoriedade de ficarmos mais em casa.

 

Junto com esta tendência de mudança nas cozinhas e no cozinhar em nossas casas, a pandemia também acelerou a aproximação na forma de atuar dos caterings e restaurantes, ao conceito do varejo. Obviamente, aproveitando estas oportunidades, o varejo também está se movendo. Supermercados aumentaram muito seu leque de produtos além dos commodities, com refeições prontas ou semi-prontas, produtos de valor agregado mais alto, atendendo às necessidades de uma comida melhor, mais nutritiva e com um preparo mais prático.

 

As empresas de refeição coletivas estão acelerando suas ofertas de produtos para serem consumidos fora das empresas, uma vez que os refeitórios coletivos foram profundamente afetados pelo distanciamento social.  Pode até ser que isso não seja definitivo, mas certamente terá impacto no futuro. Segundo a Google, após o período crítico da pandemia, estima-se que 70% das pessoas devem retornar ao trabalho em ambiente profissional. Porém, teremos mais flexibilidade nas jornadas e locais de trabalho. Esta flexibilização também trará demandas e oportunidades na alimentação das pessoas, reforçando esta tendência de mescla entre restaurantes, coletividade e varejo. Outras tendências como alimentação vegana, fitness ou com ultraprocessados, deverão ser consideradas por estes três setores, que tendem a se mesclar cada vez mais.

 

E para terminar, a mistura dos três setores mencionada acima, também deverá observar a tendência de uma cozinha domiciliar mais equipada e moderna.  Fica quase impossível não lembrar do desenho dos Jetsons quando imaginamos o que está acontecendo e o como pode ser o futuro. Assim como também será cada vez mais difícil diferenciar as atuações dos restaurantes, dos caterings e do varejo. Até aqui, a pandemia nos castigou bastante, porém, deverá nos unir mais.

 

Sobre o Autor:

Cláudio Pastor é Diretor Geral da RATIONAL Brasil, empresa alemã líder mundial em tecnologia de cocção. Em 2009, Cláudio fundou a subsidiária brasileira no bairro do Itaim Bibi, em São Paulo. Seus amplos conhecimentos sobre o mercado de foodservice se devem a experiência em diferentes áreas da empresa. Antes de assumir seu cargo atual, Cláudio trabalhou como Diretor de Marketing LATAM e Vice Presidente de Grandes Contas LATAM, assumindo a diretoria geral da RATIONAL Brasil em 2018.

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