O mercado de alimentação fora do lar exige dos empresários uma capacidade constante de reinventar processos sem perder a essência que os conectou ao público em primeiro lugar. Construir um negócio rentável e de alta demanda no food service passa diretamente pela habilidade de equilibrar eficiência operacional, gestão de pessoas e sensibilidade com as transformações nos hábitos de consumo dos clientes.
Nesse cenário, o grupo O Rei das Coxinhas destaca-se como um dos modelos operacionais mais sólidos e reconhecidos de Pernambuco. Nascida na Serra das Russas, no Agreste pernambucano, a partir do trabalho árduo de dois irmãos, a marca teve a sua estrutura consolidada com 13 unidades e uma fábrica própria.
Em conversa exclusiva à reportagem da Rede Food Service, a empresária Tayane Oliveira, que está à frente das operações de lojas no litoral e na capital pernambucanos, revela os detalhes da história da fundação da empresa familiar, os desafios do gerenciamento de pessoal, a estrutura do cardápio e a estratégia por trás do novo modelo de negócios. Confira a reportagem na íntegra abaixo.
CRIAÇÃO E FUNCIONAMENTO
A trajetória do Rei das Coxinhas começou em 1987, a partir da união e perseverança dos irmãos Josenildo e Ivanildo Severino dos Santos, naturais de Gravatá (PE). Movidos pelo objetivo de dar uma vida mais confortável aos seus familiares, eles subiam e desciam de ônibus rodoviários que passavam pela BR-232, entre os municípios de Pombos e Gravatá, comercializando sanduíches, refrigerantes e lanches em veículos que faziam o trajeto intermunicipal.

O início da história do negócio contou com apoios importantes como o de “Seu” João, que cedeu espaço em sua residência para armazenar as bebidas, e Dona Lia, que disponibilizou parte de seu terreno na Serra das Russas para a montagem da barraca de zinco.
“A história do negócio começou com o meu pai Josenildo indo para São Paulo, aos 17 anos, em busca de oportunidade para a família. Chegando lá, ele trabalhou na conveniência de um posto como chapeiro, o que lhe rendeu experiência com a parte de alimentos e, depois, ele ficou à frente da loja, como Supervisor. Em Gravatá, meu tio Ivanildo vendia lanches e bebidas nos ônibus que paravam na rodoviária. Nessa época, meu tio mandou uma correspondência para o meu pai falando que o trabalho estava dando certo em Gravatá e que seria bom que meu pai voltasse para ajudá-lo. Quando meu pai retornou, ele começou a comprar coxinhas de uma senhora da cidade para revender nos coletivos”, explica a empresária Tayane Oliveira.
“Meu pai observou a produção da massa, comprou os ingredientes, foi pra casa e fez a primeira receita com a ajuda da minha mãe, Maria José, que trabalhava na produção mesmo grávida do meu irmão Deivid”, completa.
Segundo Oliveira, o nome O Rei das Coxinhas veio por intuição de Josenildo: “Durante a pintura da fachada da barraca de zinco na Serra das Russas, meu pai teve uma intuição e mandou apagar o letreiro que dizia ‘Lanche Rápido’, que era como a loja ia se chamar. Aí ele pediu ao pintor que apagasse o que tinha sido feito e escrevesse o nome ‘O Rei das Coxinhas’, que permanece até hoje, já na segunda geração dos negócios com meus irmãos e primos”.
Com o aumento da demanda e a popularização do sabor inconfundível do salgado entre os passageiros de ônibus e motoristas de carros de passeio, os irmãos Santos inauguraram a primeira loja física às margens da Serra das Russas dois anos após o início das vendas. O crescimento da rede exigiu a estruturação de uma base fabril sólida, responsável por sustentar o abastecimento de toda a rede, hoje, espalhada pelo Nordeste.
“A fábrica central é gerenciada pelo meu pai e abastece todas as treze lanchonetes com os itens prontos para a finalização. Na nossa gestão de lojas, acreditamos muito no potencial das pessoas e promovemos quem está com a gente. Nosso Gerente na unidade do Recife, por exemplo, começou na empresa como flanelinha de estacionamento em Gravatá, passou pela higienização das mesas, balcão, cozinha e Garçom até chegar à gerência. Trabalhamos com a capacitação da nossa equipe e damos o treinamento necessário para que eles possam crescer em conjunto”, afirma Oliveira.
A NOVA GERAÇÃO À FRENTE DO NEGÓCIO
Administradora de Empresas formada em 2011 e gestora à frente das operações da rede no litoral e na capital, Oliveira traz na bagagem a convivência direta com o ambiente de loja desde a infância. Ao lado do marido, Júnior, a empresária, de 36 anos, comanda quatro unidades da marca e concilia a rotina intensa de gestão com o cuidado dos três filhos. Em busca de constante aprimoramento técnico, ela prepara para iniciar este ano uma nova formação na área gastronômica.
“Amo cozinhar desde os meus nove anos de idade. Eu via a correria da minha mãe no dia a dia, dando conta da maternidade para ajudar o meu pai na loja e comecei a fazer o jantar para adiantar na rotina. Ali, surgiu a minha paixão pela culinária. Eu sempre quis cursar gastronomia, mas como na época não tinha o curso no interior de Pernambuco, fiz Administração. Mas, agora, chegou a minha oportunidade de fazer essa formação técnica em uma cozinha profissional”, destaca.

A imersão de Oliveira no negócio familiar começou muito cedo, transformando o cotidiano de trabalho em uma verdadeira escola prática de comércio e atendimento ao público. A vivência ao lado dos pais durante os períodos de expansão e nas fases de adequação das rotas rodoviárias moldou a visão executiva que ela aplica atualmente na liderança das equipes e na tomada de decisões estratégicas do grupo.
“Com cinco anos de idade, eu já tinha a minha batinha de uniforme. Aí, fui crescendo e passei a fazer a higienização das bisnagas de ketchup, maionese e mostarda, enchia os recipientes e colocava no freezer. Também passava nas mesas recolhendo os lixos com a bandeja e conversando com os clientes. E o negócio de família é isso, acompanhar toda a trajetória da marca, sabendo o quanto de esforço foi exigido para que tudo acontecesse e a gente chegasse até aqui”, reflete.
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CARDÁPIO DO REI DAS COXINHAS
O cardápio do Rei das Coxinhas mantém a coxinha de galinha como a grande estrela operacional da marca, preservando a receita artesanal que firmou a fama do estabelecimento nas estradas. Ao longo dos anos, a linha de produtos expandiu para incluir opções variadas de pastelaria, sanduíches e doces preparados no centro de produção, o que garante um mix diversificado que atende a diferentes públicos.
“A coxinha é o nosso carro-chefe inquestionável e a referência pelo qual o público nos procura desde o início. Nós mantemos rigorosamente a receita original que o meu pai desenvolveu na fábrica, garantindo o sabor e o padrão que os nossos clientes conhecem há quase quatro décadas em todas as nossas operações”, pontua Oliveira.
À frente da loja no Bairro da Madalena, Zona Norte do Recife (PE), inaugurada em janeiro deste ano, Oliveira conta que a estrutura do cardápio passou por uma adaptação estratégica para se adequar à dinâmica de consumo da capital. O menu compacto prioriza pratos de rápida finalização e integração com tecnologia de atendimento, o que mantém a qualidade do produto com foco na agilidade exigida pelos clientes locais.
“Para a unidade da Madalena, desenhamos um cardápio bem mais reduzido e voltado exclusivamente para o conceito de lanche rápido. Implementamos o autoatendimento 100% digital via totens e otimizamos o fluxo interno de expedição. Adaptamos a apresentação do produto ao ritmo acelerado do cliente de Recife sem abrir mão da nossa tradição culinária”, destaca.
PLANOS FUTUROS
O lançamento do formato Fast Food em Recife representa o ponto de partida para um plano estruturado de modernização e ganho de escala no grupo. A unidade piloto reúne tecnologia de alta performance em equipamentos de cozinha e layout focado em eficiência produtiva, servindo de base para o estudo de viabilidade operacional em novas praças comerciais.
“A unidade da Madalena, no Recife, é um novo modelo de negócio para o grupo O Rei das Coxinhas. Estamos testando e ajustando esse projeto para ver quais são as melhorias que precisamos aplicar, focando no nosso objetivo final que é validar essa operação mais enxuta para avançar com a marca para outras capitais e estados nos próximos anos”, revela Oliveira.
A continuidade do crescimento conta com o envolvimento ativo da segunda geração da família no comando dos negócios, além do planejamento para a preservação do legado da marca, como observa Oliveira. De acordo com ela, a expansão está aliada ao investimento contínuo em infraestrutura e identidade visual, integrando elementos temáticos à marca sem perder o apelo popular construído desde a década de 80.
“Trabalhamos para que a empresa seja estruturada para durar muitas gerações. Hoje, estou na gestão ao lado dos meus irmãos e primos, e espero que a geração dos meus filhos tome gosto pelo negócio também. Além disso, continuamos investindo em novidades, modernizando fachadas e trazendo inovação aos ambientes para que a marca siga crescendo de forma atualizada”, garante Oliveira.
DICAS DE GESTÃO E VISÃO DE MERCADO
Para alcançar o sucesso no competitivo mercado de alimentação fora do lar, a atualização constante de conhecimento e a leitura atenta das necessidades do consumidor são fundamentais, como analisa Oliveira.
“Na minha experiência, o segredo é nunca se acomodar. Eu sou muito inquieta e curiosa em relação a essa parte do processo operacional, então busco sempre participar de grupos de mentoria focados em gestão de restaurantes, congressos e eventos do setor de food service para buscar novidades em equipamentos e automação”.

Ainda segundo ela, além da tecnologia, a criação de uma experiência completa de atendimento dentro do estabelecimento é o verdadeiro fator que diferencia as marcas no mercado.
“Hoje em dia, a gente entende que o produto de qualidade não é diferencial, mas é obrigação do estabelecimento. Aqui no Rei das Coxinhas, vemos que o diferencial competitivo está na experiência completa que é oferecida ao cliente com um ambiente agradável, um atendimento eficiente e com agilidade. A minha dica para quem quer prosperar nesse ramo é investir na capacitação dos colaboradores, ouvir o que os clientes têm a dizer e preservar a tradição sem perder a humildade e a essência da marca”, conclui.
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