Durante muito tempo, beber esteve associado à quantidade, à celebração e até a uma certa ideia de pertencimento. Hoje, porém, colocar uma bebida no copo envolve escolhas que vão muito além do sabor. O momento, a disposição para o dia seguinte, o estilo de vida e até o significado daquela experiência passaram a entrar na conta.
Essa mudança não acontece de forma isolada nem significa simplesmente que uma geração deixou de beber. Ela revela uma relação mais dinâmica com o consumo, em que experimentar, alternar, moderar e escolher melhor passaram a fazer parte da mesma equação.
Para empresários e profissionais do setor food service, entender essa nova lógica deixou de ser apenas acompanhar uma tendência: é perceber para onde está caminhando o próprio mercado de bebidas. Quer saber mais? A gente te conta.
UMA NOVA RELAÇÃO COM A BEBIDA
Segundo Ale Prates, Bartender, Cozinheiro, Pesquisador e Historiador de Gastronomia, com mais de 12 anos de atuação na área de Alimentos e Bebidas (A&B), quando se olha para o consumo de bebidas alcoólicas entre as diferentes gerações, há um grande contraste no padrão. “Antigamente, a escolha de não beber era quase um tabu. A pessoa precisava de uma justificativa de força maior, como estar grávida ou tomando remédios, para não ser malvista ao recusar um copo. Hoje, a sobriedade por escolha própria é totalmente aceita”, aponta.
Para ele, jovens da Geração Z (nascidos de 1997 até 2012) colocam na balança aspectos como o estilo de vida, noites melhores de sono e a produtividade de dias sem ressaca. “Além disso, o próprio produto mudou, uma vez que há uma demanda muito maior por variedade e por opções menos danosas, como bebidas sem açúcar, de baixa caloria e com formulações mais naturais.”
Fabiana Gonçalves, que atua como Jornalista, Sommelière e Empresária do ramo de Gastronomia, com Qualificação Level 3 Advanced pela Wine & Spirit Education Trust (WSET), além de ser Embaixadora Certificada da Academia de Vinhos de Portugal, explica que uma das principais diferenças está na relação que cada geração estabelece com a bebida. “As gerações anteriores cresceram com hábitos mais definidos e uma fidelidade maior a determinadas categorias. Era comum alguém se identificar como consumidor de cerveja, vinho ou destilados, por exemplo”.
Ela explica que, entre os mais jovens, percebe que há um comportamento muito mais aberto e bem menos preso a categorias. “Eles transitam com facilidade entre um vinho, um drinque, uma cerveja, ou mesmo uma bebida sem álcool. A escolha depende muito mais do momento, da ocasião e da experiência que procuram”, diz.
A especialista também revela que enxerga uma relação mais consciente com a quantidade no público jovem. “Hoje, beber não significa necessariamente beber muito. Há uma valorização maior da experiência, da socialização e da descoberta. Ao mesmo tempo, é um público curioso, que experimenta sabores e formatos novos com bastante facilidade”.
MENOR CONSUMO OU APENAS MENOS ÁLCOOL?
Para Prates, a resposta mais honesta para essa pergunta é: um pouco dos dois. De acordo com ele, é possível notar que existe uma adesão enorme dos consumidores mais jovens aos coquetéis e cervejas sem álcool, algo raro no passado. “Pesquisas apontam que a Geração Z bebe de 20% a 30% menos em volume do que a geração anterior quando tinha a mesma idade. E quando escolhem beber, priorizam qualidade, equilíbrio e coquetelaria autoral em vez do consumo massivo”, detalha.
Além disso, segundo o Bartender, a dinâmica da noite também mudou. “Tornou-se natural alternar uma dose alcoólica com um copo de água ou uma opção sem álcool, para diminuir ou evitar a ressaca no dia seguinte. É uma geração que demonstra muito mais estratégia e inteligência emocional em relação ao próprio corpo e ao tempo.”

Gonçalves concorda que as duas coisas acontecem. “Durante algum tempo a ideia de que os jovens estão deixando de beber ganhou muita força, mas pesquisas mais recentes mostram um cenário mais complexo”, informa a Sommelière.
Ela explica que a Geração Z vem aumentando sua participação no consumo de bebidas alcoólicas à medida que mais integrantes chegam à idade legal para beber. “O que mudou bastante foi a maneira de consumir. Há mais moderação e maior alternância entre bebidas alcoólicas e não alcoólicas.”
Para Gonçalves, o consumo está saindo de uma lógica de quantidade para entrar, cada vez mais, em uma lógica de ocasião. “O consumidor pode beber vinho num jantar, optar por um drinque sem álcool em outra situação e escolher um coquetel ou uma cerveja em um encontro com amigos. Essa flexibilidade me parece uma das características mais importantes dessa geração”, aponta.
CRESCIMENTO DAS BEBIDAS SEM OU COM BAIXO TEOR ALCOÓLICO
Na opinião de Prates, o interesse por bebidas não alcoólicas e de baixo teor não apenas cresceu, como remodelou a indústria. Isso porque, com a mudança no padrão de consumo, virou regra que as grandes cervejarias disponibilizem versões de bebida sem álcool e de qualidade. “Também podemos citar a explosão de chás gaseificados, kombuchas e soft drinks premium, que vão muito além dos refrigerantes e sucos artificiais.”
O Bartender alerta que, na coquetelaria, esse movimento é ainda mais visível. “O público jovem busca drinques sem álcool que entreguem a mesma complexidade, apresentação e cuidado técnico da coquetelaria clássica. Uma simples soda ou suco básico já não atendem essa expectativa”, alega ao destacar que muitos donos de bares e restaurantes já entenderam que essa demanda deixou de ser uma moda passageira e virou o novo padrão de consumo social.
Para Gonçalves, o segmento de bebidas sem álcool e de baixo teor alcoólico é um dos mais interessantes atualmente. “Eu não acredito que isso esteja relacionado apenas à abstinência. Muitas pessoas que consomem produtos sem álcool também consomem bebidas alcoólicas. É uma questão de escolha e de adequação ao momento.”
Ela partilha ainda que saúde e bem-estar têm um peso importante na decisão de consumo. “Basta perceber o aumento no número de academias nas cidades e no movimento da corrida de rua, por exemplo. Tem também o desejo de evitar ressaca, manter uma rotina de exercícios, dirigir ou simplesmente permanecer mais disposto no dia seguinte”, frisa.
Para a Sommelière, outro fator fundamental é que a qualidade desses produtos melhorou bastante. “Hoje, encontramos cervejas sem álcool muito interessantes, além de espumantes, vinhos, destilados alternativos e coquetéis sem álcool cada vez mais sofisticados.”
NOVOS SABORES E FORMATOS
Prates explica que, nos últimos anos, o paladar dos consumidores mudou radicalmente. De acordo com ele, a preferência por bebidas excessivamente doces está em declínio, dando lugar a opções sem açúcar, a perfis mais secos e a dulçores naturais ou de frutas frescas.
Outro perfil que ganhou destaque é o salgado e umami. “Vemos um interesse crescente por clássicos como o Bloody Mary e o Dirty Martini, além de coquetéis autorais que usam soluções salinas para realçar camadas de sabor. A salinidade traz equilíbrio, frescor e uma sensação muito mais requintada e gastronômica ao copo do que um dulçor plano e sem profundidade”, diz.
Já Gonçalves destaca, principalmente, o crescimento dos coquetéis e das bebidas prontas para beber (Ready to Drink), tanto alcoólicas, quanto não alcoólicas. “Entre os drinques prontos com álcool, estão exemplos como Skol Beats, Schweppes Mixed, Smirnoff Ice e Jack Daniel’s & Coca-Cola. Entre as bebidas prontas sem álcool, acredito que os energéticos lideram a preferência das novas gerações (tem o detalhe que estes muitas vezes são consumidos junto com álcool). Chás e sucos 100% naturais são outras bebidas que também caíram no gosto do público atual”, detalha.
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O IMPACTO DO CUSTO-BENEFÍCIO NO CONSUMO
De acordo com os especialistas ouvidos com exclusividade pela reportagem da Rede Food Service, o consumidor mais jovem segue disposto a gastar, mas para isso deseja sentir que a experiência valeu a pena. Isso quer dizer que o preço e a percepção de valor ganharam peso na decisão de compra e consumo de bebidas, e isso tende a ser particularmente relevante entre os consumidores mais jovens, que costumam comparar mais as opções e a buscar experiências que justifiquem o gasto.
Para Prates, o mercado sente esse impacto com clareza. “O conceito de custo-benefício mudou. O jovem prefere investir um valor maior em uma ou duas bebidas de alta qualidade, como cervejas artesanais, rótulos premium ou uma coquetelaria autoral, do que gastar em grande volume de produtos inferiores”, salienta.
O Bartender destaca que esse investimento se estende a outros aspectos da vivência e não apenas ao líquido na taça. “É a experiência, o design, o atendimento, a atmosfera do local… Os jovens estão dispostos a pagar quando sentem que o produto e o ambiente entregam valor real, em vez de apenas beber por conveniência em qualquer lugar.”
Na opinião de Gonçalves, o custo-benefício tem um peso enorme na decisão de consumo dos mais jovens. “É uma geração bastante impactada pelo custo de vida e que, em muitos casos, dispõe de uma renda menor. Isso naturalmente interfere nas escolhas.”

Mas, a Sommelière frisa que o custo-benefício não significa, necessariamente, procurar o produto mais barato. “O jovem pode estar disposto a pagar mais por algo que considere especial, desde que perceba valor naquela experiência. Pode ser uma marca interessante, uma embalagem diferente, um produto artesanal, uma origem específica ou algo que tenha conhecido nas redes sociais”, explica.
CONEXÃO QUE VAI ALÉM DA BEBIDA
E há mais por trás de cada decisão. Pontos como ingredientes, origem e sustentabilidade também ganharam peso na decisão de consumo. “Hoje, a gastronomia isolada não basta. O público busca conexão, identidade e sentimento de comunidade”, diz Prates.
Para o Bartender, nesse cenário, o estabelecimento precisa ter uma persona bem definida para provocar o consumo, o que vai desde a decoração e a curadoria da playlist até o respeito à origem dos ingredientes e práticas sustentáveis. “Quando um bar ou restaurante cuida desses detalhes e se posiciona com autenticidade, ele atrai pessoas que compartilham dos mesmos valores. A bebida e a comida passam a fazer parte de uma experiência muito maior. Assim, o cliente não vai apenas pela gastronomia, mas para vivenciar e pertencer àquele ambiente.”
Gonçalves avalia que, hoje, a bebida não é avaliada apenas pelo que existe dentro da garrafa. A história que acompanha aquele produto passou a fazer parte da experiência. “Origem, ingredientes, método de produção, sustentabilidade, identidade da marca e embalagem são elementos que podem influenciar a decisão. E a estética ganhou uma importância enorme porque vivemos numa cultura extremamente visual.”
Como sommelière, Gonçalves considera interessante observar isso no vinho. “Durante muito tempo, o setor se comunicou de uma maneira bastante técnica, falando de denominação, safra, terroir e método de produção. Tudo isso continua importante, mas para conquistar novos consumidores é necessário também transformar essas informações em histórias compreensíveis e interessantes”, esclarece.
De acordo com ela, o jovem quer saber de onde veio aquele produto e o motivo dele ser diferente, porém, nem sempre deseja receber essa informação por meio de um discurso muito técnico.
O FUTURO DO SETOR
Segundo Prates, esse comportamento observado nas novas gerações é uma transformação definitiva e duradoura. “O estilo de vida saudável deixou de ser nicho. As pessoas praticam mais atividades físicas, têm maior cuidado com a alimentação e o consumo consciente de álcool acompanha essa mentalidade”, aponta.
Para os próximos anos, Prates revela que enxerga como tendência uma proliferação ainda maior de espaços gastronômicos desenhados especificamente para atender a essa demanda, com cartas dedicadas a drinques funcionais, não alcoólicos e uma hospitalidade focada no bem-estar integral do cliente.
Sobre o futuro do consumo no setor de bebidas, Gonçalves prevê que estamos diante de uma transformação. “Algumas tendências específicas certamente vão passar, como acontece em qualquer mercado, mas a mudança na relação com o consumo me parece muito mais profunda”.
Ela complementa que a moderação, por exemplo, já não é apenas uma tendência da Geração Z, uma vez que já começa a aparecer em diferentes faixas etárias. “As pessoas estão incorporando com mais naturalidade a ideia de beber menos em determinadas ocasiões, passar períodos sem álcool ou alternar bebidas tradicionais com opções sem álcool”, diz.
Ainda de acordo com a Sommelière, devem continuar em crescimento as bebidas sem álcool e de baixo teor alcoólico, as bebidas prontas para beber, os coquetéis, as embalagens, as porções menores e os produtos associados a ocasiões específicas de consumo.
“Também acredito que autenticidade, origem e experiência continuarão importantes. O consumidor terá cada vez mais opções e, consequentemente, será mais difícil conquistar sua fidelidade. Para o vinho, particularmente, vejo isso como um desafio e também como uma oportunidade. O vinho concorre hoje com uma quantidade enorme de bebidas e precisa se comunicar melhor com as novas gerações”, declara.
NA VISÃO DE QUEM VENDE
O empresário João Victor Melo é proprietário do Downtown Beer Garden, estabelecimento localizado no Recife, capital de Pernambuco. A casa funciona em um ambiente único na cidade, dentro de um grande jardim que conta com um acervo de mais de 80 espécies botânicas, bem no coração da Zona Norte da capital, com possibilidade de reservas para até 50 pessoas acomodadas de forma confortável. “Nosso jardim, apesar de requintado, oferece um cardápio com ótimo custo-benefício aos clientes, com cerveja gelada, chope, drinques, excelentes petiscos e pratos, happy hour todos os dias e comanda individual sempre”, diz o proprietário.
O setor de bebidas tem um peso importante dentro do negócio. Melo estima que 35% do faturamento mensal do Downtown Beer Garden vem da bebida. “É uma fatia significativa dentro do nosso organismo enquanto negócio. Somos uma casa Heineken e Coca-Cola, então, por causa dessa parceria, as nossas ações sempre rondam essas duas grandes empresas”, completa.
Com a oferta de happy hour diário, muitos clientes procuram o estabelecimento justamente para aproveitar momentos de consumo prolongado com a família e os amigos. “Na quinta-feira, por exemplo, temos praticamente o dia todo de happy hour. Aos domingos, as ofertas também são estendidas, indo das 12h às 18h.”

Com um fluxo grande de clientes, o empresário afirma que tem notado sim mudanças na forma de consumo promovidas pelos consumidores mais jovens. “No último ano, vimos uma migração de consumo bem característico na cerveja. O volume de consumo caiu, nada alarmante, mas a procura também começou a ser outra”, diz.
Segundo Melo, os dados do estabelecimento revelam que o gráfico de consumo de cervejas sem álcool cresce semana a semana. E tem aumentado também a procura pelas cervejas sem glúten, ou menos calóricas, como a Amstel Ultra e Praya. “Mas, a gente sente isso mais direcionado à cerveja. O consumo de destilados, drinques e vinhos ainda se mantém na mesma média”, divide.
Na visão do empresário, o que acontece é que o público mais jovem tem buscado por consumos mais saudáveis de forma muito mais constante. “Na prática, no nosso primeiro ano, vendíamos 12 unidades de Heineken Zero por semana, contra 250 unidades de Heineken 600 ml. Hoje, o número de vendas de produto zero quadruplicou, isso ainda por termos a Sol Zero, que tem até Vitamina D na composição, e ainda outras opções mais leves.”
De acordo com ele, a realidade é que o consumo de bebidas alcoólicas da Geração Z segue constante. “Não há nada muito alarmante que prenuncie uma crise, ou uma mudança absoluta no aspecto de escolha do que beber, mas sim uma migração para cervejas que acompanham mais o estilo de vida das pessoas”, esclarece.
Ainda assim, Melo procura se manter atento às tendências e mudanças. O empresário explica que, no seu estabelecimento, o consumo de drinques segue bastante forte, mas ressalta que sempre se preocupou em incluir no cardápio de bebidas opções menos calóricas, como a Gin Tônica e alternativas com tônica zero ou sem excesso de xaropes.
Além disso, para se adaptar ao movimento do mercado de bebidas, o empresário esclarece que criou um pequeno cardápio com as opções de cervejas especiais, intitulado de “Quer pegar leve? Vem sem culpa”. Nele, são apresentadas as opções de cervejas sem álcool ou mais leves.
Quando o assunto são as bebidas não alcoólicas, Melo revela notar uma nítida busca pela redução de danos à saúde mesmo durante os momentos de confraternização, lazer e consumo, o que acompanha outras escolhas feitas no dia a dia dos clientes. “Aqui, cito a questão da Coca-Cola zero, que vendemos em um volume maior do que todos os outros refrigerantes normais juntos, incluindo a versão tradicional da Coca-Cola. Então, vemos que a decisão sobre beber e o que beber vem sendo feita com muito mais critério que há alguns anos”, conclui.
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Anna Katia Cavalcanti
Jornalista formada em Comunicação Digital, com habilitação em Jornalismo, e pós-graduada em Marketing Digital e Mídias Sociais. Atua como repórter, assessora de imprensa e social media. Tem passagens pelas editorias de Cultura, Cidades e Online do jornal Diario de Pernambuco e acumula participações em projetos editoriais e institucionais.
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