PASSAPORTE PARA O RECOMEÇO: COMO A PROFISSÃO DE CHEF ABRE CAMINHOS PARA BRASILEIROS NA AUSTRÁLIA

Alta demanda por profissionais de gastronomia facilita a jornada migratória para quem deseja reconstruir a vida do outro lado do mundo. Conheça a história de três Chefs brasileiras que seguiram este caminho

A Chef Alessandra Guimarães na Austrália - Foto: Divulgação
A Chef Alessandra Guimarães trabalha em Perth na Austrália - Foto: Divulgação

 

Dados divulgados em maio deste ano mostraram que Chef foi a ocupação com a maior quantidade de vistos patrocinados por empregadores na Austrália. Ao todo, foram 6.361 vistos concedidos no último ano, o que representa um crescimento de 180% em relação ao período anterior.

 

E não é de hoje que a profissão é considerada uma das principais portas de entrada para imigrantes que desejam estabelecer raízes no país. As trajetórias das brasileiras Priscila Felipe dos Santos, Alessandra Guimarães e Beatriz Beshara ilustram muito bem esse cenário. Embora tenham histórias completamente diferentes, elas compartilham um ponto relevante: foi a cozinha que viabilizou a construção de uma nova vida do outro lado do mundo.

 

Então, que tal conhecer as histórias de brasileiras que encontraram na gastronomia o caminho para viver na Austrália? É só conferir na sequência:

 

  • QUANDO UMA ESTRATÉGIA DE VISTO SE TRANSFORMA EM VOCAÇÃO
  • DE CARREIRA CONSOLIDADA EM MARKETING PARA A LIDERANÇA DE UMA GRANDE COZINHA
  • CHEGADAS, PARTIDAS E UM CORAÇÃO DIVIDIDO ENTRE DOIS CONTINENTES
  • FORMAÇÃO AJUDA, MAS NÃO GARANTE PERMANÊNCIA

 

QUANDO UMA ESTRATÉGIA DE VISTO SE TRANSFORMA EM VOCAÇÃO

 

Se alguém dissesse à carioca Priscila Felipe dos Santos que ela se tornaria Chef na Austrália, provavelmente, ela daria risada. Formada em Administração e atuando na área de Compras e Suprimentos, Santos decidiu investir em um intercâmbio de seis meses para estudar inglês e avançar profissionalmente. Até então, cozinhar era apenas um hobby cultivado em casa e compartilhado com a mãe e a irmã.

 

“Eu venho de uma família relativamente pobre e sempre vi a profissão de Chef como algo para quem tinha dinheiro. No Brasil, é um curso caro e bastante elitizado. Mas, eu sempre gostei de reunir os amigos e preparar jantares para a família”, conta.

 

A estadia foi ampliada e, depois de uma viagem de férias pela Ásia e de uma visita à família no Brasil, Santos chegou a uma conclusão: em seu coração, a Austrália já havia se transformado em lar. Para permanecer definitivamente no país, porém, seria necessário traçar um plano concreto.

 

“Recorri a uma consultora de imigração e ela me apresentou possibilidades de cursos que facilitariam esse caminho. Entre as opções estavam Engenharia, Educação Infantil e Gastronomia. Não tive dúvidas e escolhi a cozinha”, explica.

 

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Priscila Felipe dos Santos – Foto: Divulgação

 

O que começou como uma estratégia migratória acabou se transformando em uma paixão genuína. Entre cursos, estágios e muitas horas de trabalho nos fins de semana, a Chef coleciona momentos marcantes.

 

“A cozinha me proporcionou experiências que eu sempre quis viver, como trabalhar em um festival aborígene em Coral Bay. Pude entender melhor a cultura, aprender sobre plantas nativas e ser recebida pelos donos tradicionais daquela terra. Com certeza, foi muito especial. Também amei trabalhar com as crianças porque são muito carinhosas. Comida é amor e os pequenos sentem isso, então, sempre elogiavam ou me abraçavam para agradecer.”, relembra.

 

Depois de conquistar a cidadania australiana, ela quis testar outras habilidades e se aventurou em cargos administrativos. Acabou admitindo, no entanto, que o cotidiano do escritório não tinha o mesmo “sabor” dos bastidores de uma cozinha profissional.

 

“Eu adoro trabalhar na cozinha porque encontro pessoas do mundo inteiro. Existe uma convivência que não encontrei no meio corporativo. Gosto da adrenalina da casa cheia, com os pedidos chegando e os pratos ficando prontos. É uma paixão e vicia”, afirma.

 

Atualmente, Santos trabalha em operações de mineração em ambientes remotos e presta serviços para unidades das Forças Armadas australianas.

 

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DE CARREIRA CONSOLIDADA EM MARKETING PARA A LIDERANÇA DE UMA GRANDE COZINHA

 

Alessandra Guimarães é formada em Propaganda e Marketing no Brasil e desembarcou na Austrália em 2016 para estudar inglês. Com uma carreira consolidada na indústria de cosméticos, ela queria desenvolver a fluência no idioma e tornar o currículo mais competitivo. Aos poucos, começou a considerar a possibilidade de estabelecer uma vida na Austrália e percebeu que precisaria planejar os próximos passos.

 

O caminho migratório escolhido foi semelhante ao de Santos. Ela iniciou a formação em Commercial Cookery e, posteriormente, complementou os estudos com uma especialização em Confeitaria. Dessa forma, o que havia começado como uma estratégia para permanecer no país também se transformou em uma nova carreira.

 

Atualmente, Guimarães prepara sozinha refeições para cerca de 40 crianças em uma creche e gerencia uma das cozinhas do Optus Stadium, um dos principais estádios da Austrália, localizado em Perth.

 

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Alessandra Guimarães – Foto: Divulgação

 

O maior desafio para concluir a jornada rumo à residência permanente, no entanto, não foi na cozinha. Ela esbarrou em uma exigência que costuma desafiar muitos candidatos: a prova de proficiência em inglês.

 

“Fiz o exame sete vezes e, a cada tentativa, tinha dificuldade em uma parte diferente. Já não aguentava mais e precisava alcançar uma nota específica para poder aplicar para a residência permanente”, explica.

 

Naquele momento, Guimarães já estava em um relacionamento estável com o atual marido, um Chef australiano que conheceu durante o trabalho no estádio. Juntos, decidiram seguir pelo Partner Visa, modalidade destinada a cônjuges e parceiros de cidadãos ou residentes permanentes do país. Além do encontro com o companheiro, foi durante a experiência no Optus Stadium que ela recebeu a sua primeira promoção na Austrália.

 

“Fiquei insegura em aceitar, mas eles disseram o quanto acreditavam em mim e que tinham certeza de que eu seria capaz. Foi um momento que me fez sentir que todo o meu esforço dos últimos anos havia valido a pena”, destaca.

 

CHEGADAS, PARTIDAS E UM CORAÇÃO DIVIDIDO ENTRE DOIS CONTINENTES

 

Ao contrário de Santos e Guimarães, a Gastronomia chegou à vida de Beatriz Beshara antes do amor pela Austrália. Ela já atuava como Chef no Brasil quando decidiu experimentar uma nova cultura. O que ela não imaginava era que a experiência que levava na bagagem abriria caminhos para se tornar cidadã de outro país.

 

Mesmo com essa vantagem a seu favor, a jornada exigiu adaptação a novos costumes, ingredientes e formatos de trabalho. Beshara transitou por cozinhas e culinárias distintas até conseguir o patrocínio de um restaurante para avançar em seu processo migratório. A cidadania australiana foi conquistada em 2018.

 

“Eu digo que foi na Austrália que aprendi a ser Chef. Antes, eu era uma estudante de Culinária, uma Cozinheira. Todo o trabalho duro e o jogo de cintura que precisei desenvolver me ensinaram a comandar uma cozinha”, afirma.

 

A experiência também ampliou o seu repertório profissional e a sua compreensão sobre a relação entre comida e cultura. “A gastronomia é uma linguagem universal. Ela reflete a história das pessoas, a riqueza, a pobreza, os costumes e até a religião”, explica Beshara.

 

Com a carreira consolidada e a cidadania conquistada, porém, a distância da família começou a pesar. O envelhecimento da avó e os problemas de saúde do pai a fizeram tomar uma decisão tão corajosa quanto a de partir: voltar para o Brasil.

 

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Beatriz Beshara – Foto: Divulgação

 

Dizer adeus aos amigos e ao país que a acolheu não foi fácil, mas a Chef se emociona ao reconhecer que era o certo a ser feito. “Pude estar ao lado da minha avó em seus últimos meses de vida e acompanhar o meu pai. Sinto que voltei para cuidar e ser cuidada. Eu precisava disso”, conta.

 

Recentemente, Beshara iniciou um novo capítulo profissional em São Miguel dos Milagres (AL), onde está à frente de uma grande cozinha no setor hoteleiro. Mesmo animada com a nova fase, não enxerga a mudança como um rompimento com o país onde passou grande parte da vida adulta. “A Austrália é a minha segunda casa. Amo aquele lugar e sinto falta dos amigos que deixei para trás. Nunca achei que fosse voltar ao Brasil, mas voltei, e está tudo bem. Vamos ver o que o destino reserva”, conclui.

 

FORMAÇÃO AJUDA, MAS NÃO GARANTE PERMANÊNCIA

 

Segundo a Consultora de Imigração da Tagarela Migration, Luciana Rodrigues, Chef continua presente nas principais listas de ocupações qualificadas da Austrália e pode oferecer acesso tanto aos vistos independentes, quanto aos patrocinados por empregadores.

 

No entanto, a especialista ressalta que a conclusão de um curso não garante a residência permanente. Dependendo da modalidade pretendida, o candidato deverá comprovar formação, experiência profissional, proficiência em inglês e aprovação no Skills Assessment (Avaliação de Habilidades), além de atender aos critérios de idade e às regras específicas de cada estado. “Não basta apenas estudar. Para se qualificar para a maioria dos vistos, é preciso ter experiência profissional, cumprir uma quantidade específica de horas de trabalho, entre outros requisitos”, explica.

 

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Luciana Rodrigues – Foto: Divulgação

 

Ela também recomenda que os estudantes comecem a atuar na cozinha desde o início da formação, acumulando experiência e conhecendo a realidade da profissão. Afinal, gostar de preparar refeições em casa não significa necessariamente estar preparado para a pressão de uma rotina de restaurante.

“Cozinhar em casa é uma coisa e cozinhar em um restaurante é outra. Estamos falando de pelo menos quatro ou cinco anos de estudo e trabalho até chegar à residência permanente. Por isso, além de pensar na estratégia de visto, é importante que a pessoa goste ou será um período muito difícil”, orienta. O domínio do inglês também não deve ser deixado para o final do processo, pois influencia tanto a elegibilidade para os vistos, quanto a capacidade de conquistar uma oportunidade no mercado de trabalho.

 

As histórias dessas três brasileiras comprovam que a cozinha pode abrir portas, mas atravessá-las exige dedicação, capacidade de adaptação e disposição para recomeçar. Para quem considera trilhar a mesma jornada, Santos alerta: “não é o caminho mais fácil. É uma carreira que exige muito esforço, cuidado e dedicação”.

 

Guimarães aconselha encarar os dias mais difíceis como parte de um projeto de vida de longo prazo: “é uma aposta no futuro, uma etapa e um desafio que você enfrenta acreditando que, mais adiante, poderá colher os frutos.”

 

Beshara, por sua vez, destaca a importância de reconhecer o próprio valor profissional: “demorei para entender que não basta ser boa no trabalho. Você também precisa saber se posicionar e mostrar o que faz.”

 

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Márcia Costanti
Márcia Costanti
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Jornalista pela UFJF, especialista em comunicação estratégica pela PUC-Minas e certificada em Strategic Marketing Management pela Ohio University (EUA). Tem ampla experiência com a produção de conteúdo institucional e artigos otimizados para SEO, principalmente nos setores de finanças, previdência, educação e tecnologia.

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