Depois de começar a vida na Europa devido a um relacionamento amoroso que não deu muito certo, Keila dos Santos, de 38 anos, natural de Recife, em Pernambuco, formada em Logística, encontrou no restaurante onde passou uma década trabalhando a sua nova vocação profissional e paixão de vida. E isso porque, após atuar em outras áreas como a da Limpeza, na Alemanha, por exemplo, e ser apresentada ao mercado de food service pelo atual companheiro, hoje, ela possui dois negócios de alimentação fora do lar que fazem o maior sucesso na Holanda:
A Frituur New Orleans: tradicional lanchonete de batatas fritas (frituur) e snack bar localizada em Maastricht, onde os clientes encontram batatas fritas frescas, hambúrgueres, pratos combinados de carne como shoarma, sanduíches quentes e petiscos variados típicos da culinária de frituras belga e holandesa.
O Rumors: moderno bar e restaurante localizado em Maastricht, onde os clientes curtem um espaço descontraído do tipo urban food bar e encontram almoço, petiscos variados, jantares e variados drinks.
“Na Frituur, todos os molhos quentes (Saté, Goulash e a Zuurvlees) são feitos por nós mesmos. Nada é processado ou comprado pronto. Fazemos nós mesmos todo o processo de preparação, o que acaba por atrair um bom número de pessoas. E assim também acontece como o nosso Souvlaki. Já no Rumors, o nosso atrativo é o Rumors Special, que é uma torre de três andares com uma seleção dos nossos bites. Esse prato serve duas pessoas perfeitamente bem”, garante a brasileira em entrevista exclusiva à Rede Food Service.
Sendo assim, QUE TAL CONHECER MAIS SOBRE A HISTÓRIA DE KEILA DOS SANTOS E SEUS NEGÓCIOS BEM CONSOLIDADOS NA HOLANDA?
É só conferir abaixo:
- COMO TUDO COMEÇOU
- O RESTAURANTE COMO ESCOLA
- O PRIMEIRO NEGÓCIO
- A COMPRA DO RUMORS
- DOIS NEGÓCIOS, UM DESAFIO
- REINVENTAR PARA CRESCER
- APRENDER ANTES DE EMPREENDER
- UMA HISTÓRIA QUE AINDA ESTÁ SENDO ESCRITA
COMO TUDO COMEÇOU
Keila dos Santos saiu do Recife em 2010, quando ainda não imaginava que uma viagem inicialmente planejada para durar apenas um mês seria o primeiro passo de uma trajetória construída entre mudanças, desafios e oportunidades no mercado food service europeu.
Inicialmente, a ideia da nordestina era visitar uma amiga na Alemanha e participar do casamento dela. Mas, o que seria uma passagem temporária pelo país acabou se transformando em uma escolha definitiva: construir uma nova vida longe do Brasil.

O caminho, porém, não foi simples. Antes de se tornar empresária no ramo de food service, a brasileira precisou recomeçar, aprender novos idiomas, se adaptar a diferentes culturas e construir a sua carreira a partir da base. “Eu não queria voltar, então só me restava ter que me adaptar. E, quando eu fui para a Holanda depois de morar na Alemanha, eu tive que começar todo o processo de inburgering do zero. E esse sim não foi fácil. Foi um processo que eu fiz sozinha, sem nenhuma ajuda”, relembra.
A empresária acrescenta que, após quase quatro anos vivendo na Alemanha, uma nova mudança aconteceu na sua vida. Desta vez, o destino era a Holanda, onde ela se casou com Dennis, pai da sua filha e, assim, começou novamente o processo de integração ao país. E foi nesse cenário que surgiu a oportunidade que transformou a sua relação com o ramo de alimentação fora do lar.
A brasileira conta que, sem uma grande experiência anterior no setor, entrou no Rumors, restaurante onde permaneceu por dez anos e que se tornou a sua principal escola profissional. “O Rumors foi, de fato, a minha escola de integração social e também de aprendizagem do idioma”, afirma.
A partir dali, ela passou a enxergar o restaurante não apenas como um local de trabalho, mas como um ambiente de aprendizado sobre operação, atendimento, liderança e gestão. “Na minha trajetória, o observar me fez desenvolver um senso crítico mais afiado, não só para com o outro, mas principalmente para comigo mesma”, alega.
O RESTAURANTE COMO ESCOLA
A entrada de Keila dos Santos no Rumors aconteceu por meio do marido Dennis, que tinha formação como Cozinheiro e já havia trabalhado no antigo restaurante dos proprietários do estabelecimento. Mas, na época, ela ainda não imaginava que aquele trabalho se tornaria a base para toda a sua carreira como empreendedora no mercado europeu de food service. “Eu não tinha tanta experiência na área. Já tinha feito alguns bicos na Alemanha, mas nada concreto”, revela.
Dessa forma, o que começou como uma oportunidade profissional se transformou em uma década de aprendizado dentro da operação do negócio. Afinal, durante nada menos que dez anos, a brasileira acompanhou, de perto, todos os processos do restaurante: atendimento, equipe, organização, relacionamento com clientes e decisões de gestão. “Nos dez anos que eu trabalhei lá, eu desenvolvi a arte da observação, o que para mim foi uma das principais ferramentas para crescer profissionalmente. Eu sempre procurava absorver tudo que me parecesse interessante tanto para o desenvolvimento pessoal, quanto para o profissional”, relata.

Com essa postura, ao mesmo tempo, Keila dos Santos também aprendeu quais comportamentos e práticas não gostaria de levar para uma futura gestão. Assim como, tornou-se uma referência dentro da equipe do Rumors. “Eu procurava descartar e, principalmente, não replicar palavras e atitudes que não me parecessem legais. E acho que a minha falta de medo para peitar o que eu não achava justo me colocou nesta posição. Se eu não gostasse, falava logo”, divide.
A experiência prática veio acompanhada de formação, já que a empresária buscou, ao longo do tempo, também fazer cursos de “bartender, BHV, HACCP e SVH, o que ampliou o meu conhecimento técnico e profissional. Além disso, eu me tornei a pessoa que conseguia tocar o negócio praticamente sozinha e o Rumors deixou de ser apenas um trabalho. Virou uma escola. E também virou parte da minha história. O Rumors se tornou o meu amor”, assinala.
O PRIMEIRO NEGÓCIO
Embora o Rumors tenha sido a grande escola profissional de Keila dos Santos, o primeiro passo da brasileira como empreendedora de fato no ramo europeu de food service aconteceu antes da aquisição do restaurante.
Ao lado de Dennis, seu marido, ela decidiu transformar a experiência acumulada no setor em uma nova oportunidade de negócio: a abertura da Frituur New Orleans, uma operação dentro de um segmento bastante tradicional na Holanda.
Diferentemente do Rumors, conhecido pelo conceito de bites e pelos coquetéis, a frituur segue uma proposta ligada aos tradicionais snacks e frituras holandesas e a decisão de abrir a casa envolveu investimento, planejamento e, principalmente, disposição para enfrentar os desafios naturais de empreender na área da alimentação fora do lar no exterior. “Para a Frituur, investimos inicialmente € 45 mil e aí fomos fazendo os ajustes necessários para chegar onde estamos hoje”, partilha.

Em resumo, o negócio foi estruturado em sociedade com o marido de Keila dos Santos, enquanto o Rumors seguiu uma trajetória diferente, tornando-se posteriormente uma empresa em nome da própria brasileira.
Além disso, a experiência de anos acompanhando o funcionamento de um restaurante ajudou a empresária a entender que o sucesso no setor depende de muito mais do que oferecer um bom produto. Assim, na sua visão, é preciso acompanhar tendências, entender o consumidor e estar disposto a mudar constantemente. “O mercado de food service está abarrotado. Então, se faz preciso novas apresentações e pesquisas quase que diárias”, alerta.
Na Frituur New Orleans, por exemplo, essa busca por renovação aparece na criação de novidades e na adaptação do cardápio. “Estamos sempre colocando snacks novos. Sempre nos renovando e procurando agregar coisas interessantes aos nossos carros-chefes”, sinaliza Keila dos Santos.
E, para a empresária, essa capacidade de observar o mercado é uma das principais características necessárias para quem deseja atuar no setor. “Observar me fez desenvolver um senso crítico mais afiado, não só para com o outro, mas principalmente para comigo mesma. E uma das perguntas que sempre faço é se a experiência entregue ao cliente está no mesmo nível daquela que eu gostaria de receber. O que me leva a refletir se o serviço que eu ofereço alcança a régua que eu tenho para o serviço que eu gostaria de receber“, reflete
A COMPRA DO RUMORS
A possibilidade de assumir o Rumors não fazia parte dos planos iniciais de Keila dos Santos.
Durante anos, ela imaginou que o restaurante permaneceria ligado à família dos antigos proprietários, que haviam criado o negócio com a proposta de renovar o conceito de gastronomia e coquetelaria na região de Limburg, uma província dos Países Baixos localizada no extremo Sul do território neerlandês. “Eu nunca pensei em ser dona do Rumors. Na minha mente, sempre seria um negócio que ficaria na família”, endossa.
Em contrapartida, a história tomou outro rumo quando a brasileira recebeu a notícia de que o restaurante seria colocado à venda. Ela conta que, inclusive, a sua primeira reação foi de extrema surpresa. “Quando os donos me falaram que o restaurante seria posto à venda, a minha primeira reação foi de susto,” confessa.
Vale ressaltar que a decisão de Keila dos Santos de assumir o restaurante não aconteceu imediatamente. Durante quase um mês, ela avaliou a possibilidade e enfrentou as suas próprias dúvidas. “Eu só vim cogitar o fato da compra quase um mês depois”, alega.
Conforme a empresária, o desafio era grande. Afinal, assumir um restaurante já conhecido pelo público significava não apenas comprar uma empresa, mas também preservar uma história construída ao longo dos anos. No entanto, naquele momento, ela percebeu que toda a trajetória anterior havia preparado o caminho. Logo, a profissional que havia começado aprendendo dentro da operação, agora, tinha conhecimento de gestão, experiência com equipe, entendimento de clientes e uma visão completa do negócio. “No início, eu me coloquei muito em dúvida, mas eu lembrei que sou filha de um Deus vivo e que a palavra dele é clara quanto à covardia. Então, me ergui e fui à luta”, ressalta.
Para concretizar a aquisição do Rumors, Keila dos Santos estruturou o investimento com apoio profissional e financeiro. No restaurante, o aporte inicial chegou a aproximadamente € 200 mil, além dos ajustes realizados posteriormente na operação. Esse processo contou ainda com financiamento privado e bancário, organizado com o suporte do escritório de contabilidade Euregio Habetsroyen. E, quando ela finalmente assumiu o restaurante, o sentimento foi de realização. “Quando tudo deu certo, o orgulho que eu senti só não foi maior do que a minha gratidão a Deus”, destaca.
DOIS NEGÓCIOS, UMA NOVA FASE
Atualmente, a rotina de Keila dos Santos é dividida entre os seus dois negócios de alimentação fora do lar, uma filha, uma equipe de 11 funcionários (8 no Rumors e 3 na Frituur New Orleans) e todos os desafios que fazem parte da gestão nessa área.
Ou seja, o dia a dia da empresária é intenso e exige equilíbrio entre a parte operacional e administrativa. “Hoje, a vida está bem corrida. São duas empresas, uma criança, 11 funcionários e a tentativa de me manter sã diante de toda carga horária que tanto o trabalho físico, quanto o administrativo, me exigem”, desabafa.
Em contrapartida, mesmo com os desafios, ela destaca que a construção dos negócios também depende de pessoas e que divide as responsabilidades das empresas e da casa com o marido, enquanto ambos contam com uma equipe de confiança para manter as operações funcionando. “Dennis e eu nos dividimos entre as empresas e as rotinas do lar, fora que temos um time, graças a Deus, muito bom e extremamente confiável”, comemora.
É válido realçar que a gestão de dois negócios também trouxe uma visão mais ampla sobre as dificuldades do setor para Keila dos Santos. Para ela, nos atuais dias, empreender no ramo de food service exige resiliência, planejamento e capacidade de lidar com diferentes cenários. “Nem sempre está bem, nem sempre é muito. Tem dia que o faturamento é de 1 mil, mas também tem dia que é de 4 mil ou mais. Com isso, dividir os rendimentos para quitar tudo e conseguir crescer é desafiador, principalmente em baixa temporada”, alerta.
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REINVENTAR PARA CRESCER
Para Keila dos Santos, um dos maiores desafios de empreender no food service atualmente está justamente em acompanhar um mercado cada vez mais competitivo.
Com consumidores mais exigentes e uma grande oferta de estabelecimentos, manter a relevância exige criatividade, análise constante e disposição para testar novas possibilidades. “O mercado de food service está abarrotado, então se faz preciso novas apresentações e pesquisas quase que diárias”, endossa.
Nos seus dois negócios, a estratégia da brasileira, inclusive, passa por entender o comportamento dos clientes e buscar novidades sem perder a identidade das marcas. No Rumors, por exemplo, a renovação acontece principalmente por meio do cardápio. “No restaurante, temos uma carta especial que procuramos mudar sempre a cada quatro a seis semanas”, compartilha.
Já na Frituur New Orleans, a busca por inovação aparece na criação de novos produtos e combinações. “Na frituur, estamos sempre colocando snacks novos”, divulga.
Nesse contexto, de acordo com a empresária, inovar não significa abandonar aquilo que já funciona, mas encontrar maneiras de fortalecer os produtos que conquistaram o público. “Eu acredito que a evolução de uma operação está diretamente ligada à capacidade de olhar para dentro do próprio negócio e identificar pontos de melhoria. E eu vou reafirmando o que já acho bom e melhorando o que ainda não está lá essas coisas”, dá a dica.
E essa mentalidade, segundo Keila dos Santos, também está relacionada ao fato de ela trabalhar com pessoas. “Eu levo em consideração, claro, que eu trabalho com pessoas e que nem sempre tudo acontece perfeitamente bem. Mas, acho que a pegada é esta: foco”, aconselha.
O DESAFIO DE EMPREENDER LONGE DO BRASIL
Embora afirme não conseguir comparar diretamente o empreendedorismo no Brasil e na Holanda, Keila dos Santos acredita que os desafios do ramo de food service possuem muitos pontos em comum dentro e fora do país.
Na visão da brasileira, independentemente de localidade geográfica, administrar um negócio de alimentação fora do lar exige dedicação, planejamento e resistência. “Eu não consigo precisar a diferença entre empreender neste ramo no Brasil e empreender na Holanda, mas eu imagino que os desafios sejam os mesmos. De uma forma geral, tudo requer muito comprometimento e zelo, muita resiliência e, principalmente, muita determinação, pois nem sempre está bem, nem sempre é muito”, argumenta.
Além disso, a experiência construída ao longo dos anos também mostrou para Keila dos Santos que o (a) empreendedor precisa estar preparado (a) para diferentes momentos do negócio. Afinal, há períodos de maior movimento e outros em que é necessário controlar custos, reorganizar estratégias e tomar decisões com cautela. E essa capacidade de adaptação foi uma das habilidades que ela desenvolveu desde os primeiros anos vivendo fora do Brasil.
APRENDER ANTES DE EMPREENDER
Ao olhar para a sua trajetória, Keila dos Santos acredita que uma das principais recomendações para quem deseja entrar no setor de food service é buscar aprendizado antes de assumir a responsabilidade de um negócio próprio.
Para ela, trabalhar em uma operação estruturada pode ser uma das formas mais valiosas de adquirir conhecimento. “Procure trabalhar em um lugar que te dê margem de crescimento e seja exigente. Lugares exigentes formam bons funcionários e é uma maneira bem barata de adquirir todo o conhecimento necessário para gerir um negócio dessa área”, indica.
A empresária reforça ainda que observar profissionais, processos e decisões é uma ótima forma de construir repertório. “Seja esponja, procure absorver o máximo que puder. Aprendizado gratuito é sempre bem-vindo. Leia, dedique tempo para aprender coisas novas ligadas à sua área específica”, propõe.
UMA HISTÓRIA QUE AINDA ESTÁ SENDO ESCRITA
Mesmo com dois negócios já bem consolidados no ramo europeu de food service, Keila dos Santos possui planos de crescimento para o futuro.
Conforme a brasileira, a expansão dos seus negócios faz parte dos seus sonhos, uma vez que almeja levar os empreendimentos para outras cidades e/ou criar novas operações dentro do setor de alimentação fora do lar e do entretenimento. “Eu sonho com a expansão dos meus empreendimentos para outras cidades ou talvez mais um empreendimento ou dois no segmento de food service e/ou entretenimento. Mas, isso ainda está só no papel”, planeja.
Nesse contexto, é importante salientar que a trajetória de Keila dos Santos mostra que, no food service, muitas histórias de empreendedorismo começam antes da abertura de um CNPJ. Começam no salão, na cozinha, no contato com clientes e na capacidade de observar tudo o que acontece dentro de uma operação. Fica a dica!
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- Tabata Martins

