O Poeta: constância, identidade e gestão como estratégia de longevidade

Há quase três décadas em operação, o restaurante segue relevante no mercado de alimentação fora do lar ao manter padrão de qualidade, proximidade com o público e capacidade de adaptação

Beth Lima, proprietária do restaurante O Poeta - Foto: Divulgação

 

Manter um restaurante ativo e competitivo no centro do Recife, capital de Pernambuco, exige mais do que boa comida. Em uma região marcada por fluxo intenso, diversidade de públicos e transformações urbanas constantes, a longevidade passa por decisões estratégicas que envolvem localização, proposta clara e capacidade de adaptação. É nesse cenário que Beth Lima segue construindo a trajetória do restaurante O Poeta, com pilares fincados no amor, no profissionalismo e no diálogo direto com o ritmo e as demandas do bairro histórico.

 

Ao longo de quase três décadas, a casa se consolidou como um ponto de apoio para quem circula pela Avenida Barão do Rio Branco – o que inclui trabalhadores, moradores em rotina de compromissos e turistas em busca de experiências locais. A presença cotidiana da proprietária, a constância na entrega e a leitura atenta do entorno ajudam a explicar porque o restaurante segue relevante em um dos territórios mais dinâmicos da cidade.

 

No Poeta, diariamente, a proposta é servir almoço com poesia e prato com sabor de lar.

 

ORIGEM DA CASA

 

Beth Lima, proprietária do restaurante, conta que O Poeta nasceu em 1998, em uma localização privilegiada, escolhida cuidadosamente. Acontece que a casa está localizada no início da Avenida Barão do Rio Branco, no Bairro do Recife, um importante corredor histórico e turístico da capital pernambucana, com 120 anos de história. A via, considerada um marco de urbanização, foi requalificada em 2017, e, desde então, virou um boulevard exclusivo para pedestres e ciclistas, hoje, com foco no turismo, em eventos culturais, lazer e comércio.

 

Dessa forma, O Poeta foi idealizado para servir como um ponto de apoio e encontro no centro da cidade. “A proposta sempre foi atender à rotina intensa da região com comida de qualidade, ambiente confortável e preços justos. Assim, recebemos, diariamente, trabalhadores, moradores e turistas que circulam pelo bairro histórico. O Poeta foi feito para ser democrático, acessível e acolhedor.”

 

O Poeta: constância, identidade e gestão como estratégia de longevidade
Restaurante O Poeta – Foto: Divulgação

 

Por dia, de segunda a sexta-feira, com funcionamento exclusivo no horário do almoço, Lima costuma receber dezenas de clientes no restaurante. Muitos deles, frequentadores assíduos que já se tornaram amigos.

 

Vale ressaltar que, além de gerenciar o restaurante e cativar o público com boas-vindas e conversas amigáveis, a empresária não se esquiva de atender os clientes e é ela mesma quem realiza anotações de pedidos e entrega de pratos.

 

Atualmente, a casa conta com um vasto salão climatizado, cheio de referências a escritores pernambucanos e brasileiros nas paredes e nos tetos, assim como uma área externa, arborizada. O atendimento é presencial, mas também há serviço de take away.

 

CURIOSIDADE SOBRE O NOME

 

Lima, que é uma grande admiradora das artes, explica que sempre teve um apreço especial por literatura e que nutre uma paixão ainda maior pela cultura pernambucana, tão rica, tradicional e múltipla.

 

Assim, ao perceber que a casa estaria localizada em frente à Praça Ascenso Ferreira, onde há, inclusive, um busto em homenagem ao escritor que dá nome ao espaço, ela não teve dúvidas: “decidi que o restaurante se chamaria O Poeta como uma forma de reforçar a homenagem já iniciada pelo espaço público. E funcionou perfeitamente, uma vez que esse nome integra o nosso negócio à região, exalta a cultura local e está totalmente alinhado com nossa proposta gastronômica de oferecer mais do que comida. No Poeta, alimentamos o corpo e também a alma”, comenta Lima.

 

Para conhecimento: Ascenso Ferreira foi um dos nomes mais importantes da literatura pernambucana e brasileira, considerado um marco do modernismo nacional. Recentemente, a praça que leva o seu nome passou a integrar o roteiro turístico “História na Parede”, uma iniciativa do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico de Pernambuco (IAHGP), em parceria com a Prefeitura do Recife, que instala painéis de azulejos com relatos históricos em locais marcantes da cidade. No projeto, a placa de número 300 foi afixada na fachada do restaurante O Poeta.

 

PRINCIPAIS DIFERENCIAIS

 

Para Lima, o segredo de funcionar há tanto tempo no mesmo local, e, ainda assim, se manter relevante, está na constância, seja ela no serviço, no sabor ou na entrega ao cliente, independentemente do dia ou do perfil de quem ocupa as mesas. “Em uma região marcada por fluxo intenso e público diverso, manter um padrão de qualidade se torna um ativo estratégico, capaz de fidelizar.”

 

Ela ainda destaca outros diferenciais da casa, como o amplo cardápio, com um dos melhores custo-benefício da região; e ainda o serviço acolhedor. “O Poeta funciona como uma extensão do nosso lar e passamos isso para os clientes. Nosso atendimento é próximo, humano, personalizado… Temos clientes que frequentam a casa há anos e fazem sempre o mesmo pedido. Saber esses detalhes, conhecer os nomes por trás dos rostos, nos torna diferentes”, aponta.

 

O Poeta: constância, identidade e gestão como estratégia de longevidade
Restaurante O Poeta – Foto: Divulgação

 

A conexão com os frequentadores é tão profunda, que, recentemente, a empresária lançou um prato especial, temporário, em homenagem à uma cliente de longa data que se tornou uma grande amiga, o “Fettuccine à Nísia Cardoso”, com camarões, mexilhões e peixe ao molho pomodoro. “Nossa missão não é apenas servir refeições, nós acreditamos em vínculos, em relações que crescem e se tornam parte da nossa história. Nísia Cardoso frequentou O Poeta durante 25 anos, então, a rotina virou afeto e amizade. E essa relação virou prato em celebração aos laços que nascem ao redor da mesa”, conta.

 

O clima intimista, acolhedor e cheio de poesia também é um dos destaques da casa. Nas paredes, há quadros de diversos poetas e escritores. No teto e colunas, antigas páginas de jornais servem de papel de parede. Logo na entrada, um quadro, com escrita à mão, de giz, revela as sugestões diárias do Chef. Outro quadro, pendurado na parede, se mantém como um espaço livre e aberto para que os artistas do dia a dia deixem ali um recadinho poético, de esperança, de amor ou apenas de humor.

 

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O MENU

 

Atualmente, a casa – que é especializada em culinária popular, com elementos da cozinha regional pernambucana e toques contemporâneos – funciona com um menu à la carte, com pratos individuais, todos eles assinados pelo Chef Rodrigo Martins.

 

No cardápio, é possível encontrar opções de saladas, massas, peixes, frutos do mar, carnes e frango, além de entradas e sobremesas. A flexibilidade oferecida pelo menu chama a atenção: nele, a maioria das opções são abertas para que o cliente defina os acompanhamentos que serão servidos junto com a proteína. “Temos quase 20 opções de guarnições para que nosso público possa escolher aquelas que mais lhe apetece. Isso torna nosso cardápio múltiplo, com diversas possibilidades de combinações. A estratégia evita que os pratos caiam na mesmice e traz frescor e poesia para o almoço.”

 

Quando questionada sobre o carro-chefe da casa, Lima comenta que não há um único campeão de vendas, mas há destaque para todos os pratos protagonizados pelos peixes e frutos do mar. “Esses são, sem dúvidas, os queridinhos do nosso público”, revela. No time de sucesso, pratos como a moqueca de peixe ou de camarão, o bobó de camarão e ainda o camarão ao coco.

 

O Poeta: constância, identidade e gestão como estratégia de longevidade
Beth Lima, proprietária do O Poeta – Foto: Divulgação

 

Já entre os doces, a grande estrela é a nossa cartola”, diz Lima, se referindo à tradicional sobremesa do Estado de Pernambuco. Feita com banana frita na manteiga, queijo coalho e uma cobertura de açúcar e canela, a receita clássica foi considerada Patrimônio Cultural Imaterial de Pernambuco pela Lei nº 13.751/2009.

 

O menu da casa também chama atenção por, diariamente, oferecer opções de pratos do dia, intitulados por Lima como “sugestões afetivas”. Aqui, as receitas mudam diariamente e são ofertadas com um preço abaixo do cardápio fixo.

 

Vale ressaltar que, em quase três décadas de história, o negócio já transitou pelo atendimento em formato de self-service. A ideia era oferecer praticidade, rapidez e variedade ao público. O último período nesse esquema foi encerrado durante a pandemia da Covid-19. Mesmo com a liberação e retorno do atendimento no salão, Lima optou por mudar definitivamente o formato do serviço para conferir mais segurança aos clientes. “Ao longo da nossa trajetória, tivemos que nos adaptar para atender às demandas do público e do momento vivido. Isso faz parte do negócio. A nossa capacidade de reinvenção e nosso respeito pelo outro nos trouxe até aqui”, afirma.

 

PLANOS E PROJETOS

 

Lima revela que, agora em 2026, seguirá focada em oferecer o melhor atendimento e serviço possível dentro do sistema que já está consolidado pelo restaurante: o funcionamento de segunda a sexta-feira, das 11h às 15h, com pratos à la carte. “A ideia é manter uma cozinha eficiente e atrair ainda mais público. Como constância é uma qualidade muito importante para nós, recentemente, passamos por uma consultoria especializada para oferecer aos clientes mais padronização, sabor e capacidade operacional. Nosso foco está na melhoria.”

 

Porém, em datas comemorativas específicas, a empresária segue se reinventando. O Carnaval, por exemplo, é uma delas. “Estamos localizados na entrada de um dos principais polos carnavalescos do Recife, uma festa que atrai multidões do Brasil inteiro. É uma oportunidade imperdível. Então, pelo terceiro ano consecutivo, abrimos as portas durante os dias de folia, começando às 17h e seguindo até a meia-noite, com a tarefa de oferecer uma opção segura para os foliões durante o período carnavalesco”, relata Lima.

 

Ela explica que, nos dias de Carnaval, O Poeta funcionou com um cardápio especial, desenvolvido exclusivamente para o período e, claro, considerando as preferências do público. “As pessoas querem lanches rápidos, mas também procuram por opções mais robustas, para saciar e recuperar o corpo. Então, oferecemos as duas alternativas, além de uma carta de bebidas alcoólicas e não alcoólicas especial para esses dias.”

 

Como O Poeta está localizado em um corredor estratégico, Lima ainda estuda a possibilidade de voltar a ampliar o atendimento durante os festejos juninos e natalinos, recebendo o público que chega atraído pelas apresentações populares e pela decoração especial montada ao longo da Avenida Barão do Rio Branco.

 

VISÃO DE MERCADO

 

Para Lima, o mercado brasileiro de alimentação fora do lar segue desafiador, especialmente em Estados como Pernambuco, onde o consumo é fortemente impactado por renda, sazonalidade e custos operacionais. Ainda assim, ela avalia que há espaço para negócios consistentes, desde que o empresário entenda o seu público e trabalhe com estrutura adequada à realidade local.

 

Na visão dela, quem consegue manter padrão, controle e identidade clara tende a atravessar melhor os ciclos do mercado. “O consumidor está mais atento, compara mais e valoriza quando encontra um lugar em que sabe o que vai receber. No Poeta, essa confiança é construída no dia a dia, com constância e respeito ao cliente. Servimos comida com gosto de lar”, afirma.

 

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Anna Katia Cavalcanti1
Anna Katia Cavalcanti
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Jornalista formada em Comunicação Digital, com habilitação em Jornalismo, e pós-graduada em Marketing Digital e Mídias Sociais. Atua como repórter, assessora de imprensa e social media. Tem passagens pelas editorias de Cultura, Cidades e Online do jornal Diario de Pernambuco e acumula participações em projetos editoriais e institucionais.

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