Marcelo Inojosa une sabores de Pernambuco e Portugal em uma trajetória guiada pela gastronomia afetiva

Chef da Casa Morim compartilha as experiências, referências e aprendizados que ajudaram a construir a sua identidade culinária ao longo de mais de 20 anos de carreira

Marcelo Inojosa une sabores de Pernambuco e Portugal em uma trajetória guiada pela gastronomia afetiva - Foto: Divulgação

 

Nem sempre a Gastronomia surge como um plano de carreira. Para alguns profissionais, ela se revela aos poucos, em experiências vividas dentro de casa, em encontros familiares e/ou em oportunidades que aparecem quando menos se espera. Com o Chef Marcelo Inojosa, foi assim. O que começou com memórias construídas ao redor da mesa e em momentos de celebração se transformaram em uma trajetória profissional de sucesso, que já ultrapassa duas décadas.

 

Ao longo desse caminho, o Chef Marcelo Inojosa passou por restaurantes, empreendeu no segmento de Confeitaria, viveu em Portugal, abriu o próprio negócio e consolidou uma cozinha marcada pelas referências que acumulou dentro e fora do Brasil, todas elas guiadas pelo afeto.

 

Atualmente à frente da Casa Morim, no Recife, em Pernambuco, ele compartilha com a reportagem da Rede Food Service os aprendizados, os desafios e as experiências que ajudaram a moldar a sua carreira. Acompanhe!

 

RELAÇÃO COM A GASTRONOMIA

 

Marcelo Inojosa nasceu e cresceu no Recife, a capital de Pernambuco, mas também passou parte da sua infância no interior do Estado, mais precisamente no município de São Vicente Ferrer, que fica a 282 km de distância da capital. “Foi lá que eu comecei a gostar de cozinhar. Lembro que tinha uma senhora, conhecida como Zefa, que cozinhava no fogão à lenha. Ela sempre chamava os meninos para ajudar nas tarefas da cozinha e eu estava sempre em volta, ajudando”, diz ele, ao relembrar que foi a partir dessa experiência que nasceu o seu gosto pela culinária.

 

Depois, vieram os aprendizados com a mãe e com a irmã. “Costumávamos fazer os aniversários dos meus sobrinhos. Essas ocasiões fizeram surgir a minha ligação com a Confeitaria. Muita gente não sabe, mas tenho uma forte paixão por essa área”, revela.

 

Inclusive, ele confidencia que as mulheres da sua família foram as fontes inspiradoras do início da sua trajetória. “Quando eu era jovem, ainda não havia YouTube ou algo parecido. Então, trocávamos receitas entre nós. Assim, as datas especiais em que as nossas famílias se reuniam, como o Natal, por exemplo, com minha mãe, tias e madrinhas fazendo pastel de festa, bolo de rolo e várias outras guloseimas, viraram lindas memórias afetivas, e é isso o que mais me prende à Gastronomia”.

 

Marcelo Inojosa, que hoje atua como gestor e Chef de Cozinha da Casa Morim, um charmoso restaurante localizado no bairro da Várzea, no Recife, especializado em culinária afetiva luso-brasileira, destaca que foi assim que construiu o seu amor pela cozinha. “É não saber mais o que fazer, se não for cozinhar”, define.

 

PAIXÃO QUE VIROU PROFISSÃO

 

Marcelo Inojosa aponta que a virada de chave na sua relação com a Gastronomia aconteceu em 2003, quando ele perdeu o emprego. “Como eu gostava muito de cozinhar, nesse período, eu ofereci um jantar para a professora da minha filha, que havia acabado de concluir o Mestrado, e ela gostou muito. Tanto que me perguntou porque eu não cozinhava profissionalmente”, relembra.

 

Marcelo Inojosa une sabores de Pernambuco e Portugal em uma trajetória guiada pela gastronomia afetiva
Chef Marcelo Inojosa – Foto: Divulgação

 

O incentivo foi além. A professora também comunicou Marcelo Inojosa sobre a abertura de uma vaga para o restaurante da universidade em que ela estudou e o encorajou a se candidatar. “Daí, de uma vez por todas, fui atingido pela ‘pulga ou o vírus’ da Gastronomia. Até então, eu nunca tinha pensado em fazer isso profissionalmente, mas cozinhava muito em casa. Assim, quando surgiu essa oportunidade, fui atrás, até porque estava desempregado”, conta.

 

Deu certo. E, de 2003 até o momento, Marcelo Inojosa segue ativo no setor, com uma carreira consolidada e muitas realizações na bagagem.

 

FORMADO PELA VIDA

 

O Chef não teve uma formação tradicional na Gastronomia. Ele explica que até fez alguns cursos de especialização, mas que o domínio das caçarolas veio mesmo com a vida, com o dia a dia e com os exemplos. “Fui aprendendo com um e com outro. Um Chef aqui, um Chef ali. E aí, com o advento da Internet, comecei a testar mais e mais receitas. Vamos experimentando, descobrindo o que dá certo, o que agrada ou não… No meu primeiro empreendimento, por exemplo, testávamos muito as receitas. Inclusive, tivemos técnicos de várias empresas que iam, ensinavam e, assim, por meio do exemplo, fomos formando os nossos próprios sabores”, detalha.

 

TRAJETÓRIA NA GASTRONOMIA

 

Marcelo Inojosa comenta que, logo no início da sua trajetória profissional, de mais de 20 anos, assumiu o comando da cozinha do Chef Platão, um dos restaurantes da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), com funcionamento no prédio do Centro de Filosofia. Lá, o Chef teve a oportunidade de colocar em prática tudo aquilo que pensava saber, até então.

 

Mas, o talento culinário fez Inojosa ir além. “Logo depois, ainda dentro da Universidade, tive cinco restaurantes self-service sob a minha batuta.”

 

Quando saiu do centro universitário, O Chef Marcelo Inojosa partiu para novos desafios. Foi nessa época que ele montou a empresa Empório Doces e Salgados, um empreendimento que aprimorou o seu talento para a Confeitaria. “Eu acho que a primeira receita que eu fiz sozinho foi uma bala de café. Também havia as memórias das festas que eu fazia junto com a minha irmã para comemorar os aniversários dos meus sobrinhos. Então, foi natural seguir por esse caminho, com o Empório apostando na produção de festas, bolos e itens de confeitaria”, relembra.

 

O Empório Doces e Salgados segue em funcionamento até hoje, no bairro da Madalena, na Zona Norte do Recife. Atualmente, o negócio está sob o comando da irmã do Chef Marcelo Inojosa.

 

Ele, ao deixar a gestão da operação, partiu para novos desafios em Portugal, onde assumiu a cozinha da escola dos seus filhos por um período que se mostrou enriquecedor. “A cozinheira precisou tirar férias e a professora da escola me procurou para que eu assumisse a cozinha durante 45 dias. A partir dessa experiência, montei o meu próprio restaurante em Portugal.”

 

Ele se refere ao Fuxico, casa localizada no município de Arruda dos Vinhos, pertencente ao distrito de Lisboa, que funcionou durante dois anos com foco em confeitaria e pratos quentes. “Tínhamos quatro pratos todos os dias, fora lanches, bolos e sobremesas. Tudo misturado. Era comida portuguesa com comida brasileira”, esclarece.

 

Marcelo Inojosa explica que a escola dos filhos incentivava os pais a participarem de alguma forma das atividades acadêmicas. Então, mesmo após o retorno da cozinheira, o Chef oferecia o seu trabalho uma vez por semana no restaurante da instituição. “Lá, eu ajudava a cortar verduras, legumes, temperar e tudo mais. Aprendi muitas técnicas com isso, como maneiras diferentes de se fazer o bacalhau e, claro, eu trouxe isso para a Casa Morim quando voltei ao Brasil.”

 

O retorno aconteceu logo depois da pandemia de Covid-19. Foi aí que surgiu a Casa Morim, um restaurante montado nas dependências do lar do Chef. “Recomeçamos a vida novamente com esse empreendimento”, revela.

 

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A CASA MORIM

 

O restaurante luso-brasileiro comandado pelo Chef Marcelo Inojosa nasceu a partir de uma necessidade. Quando o Chef voltou com a família de Portugal para o Brasil, após uma permanência de cinco anos no país europeu, decidiu abrir um negócio na casa da família mesmo. “Foi um desafio imenso, mas foi o que a vida nos presenteou. Então, abrimos a nossa casa e os nossos corações para receber as pessoas”, explica.

 

Para fazer o projeto funcionar, Inojosa contou com cozinheiros que já haviam trabalhado com ele na época do restaurante Chef Platão, sendo profissionais que já conheciam o seu jeito de cozinhar. “Eles já sabiam fazer o meu molho de tomate, o meu bechamel… Foi mais fácil para mim tê-los nesse processo. Só precisei ensinar os novos pratos.”

 

Marcelo Inojosa une sabores de Pernambuco e Portugal em uma trajetória guiada pela gastronomia afetiva
Pratos feitos pelo Chef Marcelo Inojosa – Foto: Divulgação

 

Ainda assim, durante um período, o Chef Marcelo Inojosa seguiu à frente da operação como Cozinheiro, produzindo, pessoalmente, todas as receitas da casa, mas sempre com o auxílio dos companheiros. Aos poucos, ele começou a delegar as atividades e assumiu o papel de Chef de Cozinha. “Com isso, passei a orientar, resolver compras, atendimento… enfim, tudo o que envolve gerir um restaurante.”

 

Quando o assunto é gestão, o Chef Marcelo Inojosa comenta que é um grande desafio administrar um negócio, já que são muitas vertentes envolvidas. Por isso, ele segue se desdobrando entre marketing, novas ideias, acompanhamento da cozinha, compras, pagamentos, atendimento e gestão de forma geral. “Claro que temos gente em cada uma dessas áreas, mas eu gosto de supervisionar tudo. Então, além de Chef de Cozinha, preciso ser o chefe da casa como um todo.”

 

MENU LUSO-BRASILEIRO

 

Para montar o cardápio da Casa Morim, Inojosa lançou mão de inúmeras receitas que trouxe de Portugal para o Brasil. “Novamente, são receitas afetivas e tradicionais portuguesas, como o Gomes de Sá, o Zé do Pipo, o Bacalhau à Portuguesa, que é uma receita da minha irmã, e por aí vai. Também há o Lagareiro, que é nosso, entre tantas outras”, pontua.

 

O Chef ainda destaca o arroz de cabidela, o arroz malandrinho, o arroz caldoso e o arroz de tomate como receitas que aprendeu lá e, hoje, brilham no menu da Casa Morim.

 

À reportagem da Rede Food Service, o Chef Marcelo Inojosa ressalta que esse tipo de culinária é muito bem aceita em Pernambuco e que, ao abrir o negócio, não teve dificuldades em encontrar espaço no mercado para trabalhar com um menu luso-brasileiro.

 

“Pernambuco tem uma comunidade portuguesa muito grande, com descendentes de portugueses. Inclusive, o nosso restaurante mesmo foi inspirado pela família. Sou bisneto de portugueses. Muita gente pergunta: você é português? Não, sou bisneto. Não deixo de ser português. Amo Portugal. Amei morar em Portugal. Fomos muito bem recebidos lá e, hoje, tenho cidadania. A gente tem uma relação muito forte com Portugal. O bacalhau não é um prato barato, mas é um prato muito querido dos pernambucanos.”

 

INSPIRAÇÕES QUE GUIAM OS SABORES

 

Apesar de já ter revelado que as mulheres da sua família foram suas primeiras fontes de inspiração, a cozinha de Inojosa, ao longo dos anos, foi acrescida por muitos outros estímulos.

 

Para encontrar o seu caminho em meio a tantos sabores, ingredientes, texturas e aromas, o Chef utiliza como base as vivências e os encontros proporcionados pela vida, o que inclui as memórias familiares, as viagens e os momentos ao redor da mesa com os amigos… “Muitas das minhas receitas nasceram a partir desses encontros, como, por exemplo, a tarte de amêndoas da Ana. A Ana que dá nome ao prato é uma portuguesa que cuidava do pátio da escola dos meus filhos. Foi ela quem me ensinou a fazer o prato, que é tão gostoso, tão gostoso, que eu quis trazer para o Brasil”, revela, destacando também a torta de maçã da Ruth Wenceslau, aprendida de modo parecido.

 

O Chef Marcelo Inojosa, que se dedica a culinária luso-brasileira, comenta que esse estilo de cozinha lhe permite evocar essas memórias afetivas. Com um cardápio repleto de exemplos, ele cita o cozido de bacalhau servido no restaurante, que é feito nos mesmos moldes da receita preparada por sua tia para a ceia das noites de Natal, conhecidas como Noite da Consoada em Portugal. “Trouxemos isso para o restaurante. Toda a nossa comida gira em torno da afeição, do coração e das experiências vividas. É o que gostamos e o que faz sentido para mim”, conclui.

 

Dessa forma, não é difícil perceber que o Chef Marcelo Inojosa classifica a sua culinária como afetiva. E ele não enxerga problema algum nisso. “Tem muita gente que não gosta de dizer que a gastronomia é afetiva, mas o que é uma gastronomia afetiva? É a que vem do coração, são as memórias que a gente traz. E nada melhor para representar isso do que o filme Ratatouille. Sabe aquele momento em que o crítico de cozinha come um ratatouille, uma comida bem simples, mas que o transporta para memórias da infância? É isso. A nossa cozinha, claro, une tradicionalismo, une técnicas, mas, basicamente, ela é afetiva.”

 

OUTROS PROJETOS NO SETOR

 

Mesmo com uma rotina agitada, o Chef Marcelo Inojosa não para. Ele comenta que, de certa forma, não deixa de estar presente também no Empório Doces e Salgados. “Sempre que possível, estou lá dando uns pitacos junto com a minha irmã”, diz.

 

Marcelo Inojosa une sabores de Pernambuco e Portugal em uma trajetória guiada pela gastronomia afetiva
Chef Marcelo Inojosa – Foto: Divulgação

 

Ele também comanda o Consulado Botequim, operação gastronômica que surgiu a partir de uma demanda reprimida da Casa Morim, no período noturno. “Decidimos não abrir o restaurante à noite. Mas, daí surgiu uma oportunidade de um cantinho no pátio da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, também no bairro da Várzea, então, resolvemos abrir o Consulado Botequim”, explica.

 

O bar funciona em sociedade com o “Cônsul da Várzea”, como é conhecido Seu Zé Carlos Vidal, um verdadeiro filho do bairro. “Ele mora no pátio da igreja e conhece Deus e o mundo, sabe todas as histórias da região… Foi nossa amiga Belle, do Café A Vida é Bela, quem deu-lhe o título de ‘Cônsul da Várzea’, por todos os seus saberes em torno do bairro. Então, quando surgiu a oportunidade de montar o botequim, nada mais certo do que instituir o consulado. Afinal, já tínhamos o cônsul.”

 

PLANOS PARA UM FUTURO PRÓXIMO

 

Inojosa revela ainda que possui dois projetos em andamento. O primeiro deles é a oferta de café da manhã, ou, como se fala em Portugal, do pequeno-almoço, na Casa Morim. “Trabalhamos seis meses para fazer essa ideia acontecer. E, de certa forma, ela já está funcionando. Estamos com um buffet composto por comidas regionais e clássicos da culinária lusitana disponível no restaurante”, avisa.

 

O próximo projeto a ser executado é retomar o funcionamento noturno da Casa Morim. Para isso, recentemente, Marcelo Inojosa adquiriu um forno de pizza, no estilo napolitano, para viabilizar a execução de uma culinária mais abrangente, com toques mediterrâneos. “Muitos pratos são feitos no forno, inclusive, um pão bem-feito, bem assado. Com o equipamento, vamos começar a fazer um bom bacalhau, um cabrito, uma chanfana, uma alcatra da terceira… Tudo isso é feito no forno. Vamos ter a oportunidade de começar a fazer esses novos pratos a partir do segundo semestre de 2026”, adianta.

 

CONSELHO DE CHEF

 

Por fim, o Chef Marcelo Inojosa confidencia que, em sua opinião, quem deseja entrar no ramo da Gastronomia deve estar preparado para os desafios que terá que enfrentar, uma vez que os profissionais da cozinha são constantemente atingidos por um ritmo de vida intenso e até mesmo complicado.

 

“A gente se dedica muitas horas à profissão, não é só durante o período em que o restaurante está aberto. O nosso trabalho começa bem antes e continua bem depois. Quando nós vemos um cara que desponta como Chef, o admiramos porque sabemos todo o trabalho que há por trás para que esse profissional realize tudo o que executa. Não é sorte. É muito trabalho, muita técnica, às vezes horas para desenvolver um prato, para executar esse prato e para que ele saia da forma como a gente imagina que ele tem que sair. Para que as pessoas quando comam sintam tudo aquilo que você quer transmitir. É muito desafiador.”

 

Ele ainda elenca outros desafios que fazem parte do dia a dia da profissão, quando não se é um empreendedor do ramo. “Para quem é funcionário ou Cozinheiro contratado, os salários são muito baixos nessa área e é isso o que faz muita gente pensar em desistir, por acreditar ser muita entrega para pouco retorno. E é por isso que muita gente empreende, porque fica mais fácil, talvez, conquistar alguma coisa. Muitos também optam por ser Chef Executivo de algum lugar ou ser consultor. Então, esteja preparado para o mercado”, aconselha.

 

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Anna Katia Cavalcanti
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Jornalista formada em Comunicação Digital, com habilitação em Jornalismo, e pós-graduada em Marketing Digital e Mídias Sociais. Atua como repórter, assessora de imprensa e social media. Tem passagens pelas editorias de Cultura, Cidades e Online do jornal Diario de Pernambuco e acumula participações em projetos editoriais e institucionais.

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