Anos atrás, o uso de glitter na confeitaria se popularizou como recurso estético em bolos, doces e sobremesas, muitas vezes voltados ao público infantil. Mas, você sabia que o brilho que chama atenção nas vitrines, nos vídeos e fotos pode esconder um detalhe importante e ainda pouco conhecido por muitos consumidores? O fato é: nem todo o glitter utilizado nesses itens é próprio para consumo.
O tema ganhou relevância após alertas sobre o uso de produtos apenas decorativos em alimentos. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) proibiu o uso de produtos que contenham polímeros plásticos, como polipropileno (PP) e PET micronizado, em preparações alimentícias. O órgão também suspendeu marcas que utilizavam materiais não autorizados.
Esses componentes, comuns em glitters decorativos, não são próprios para ingestão e podem representar riscos à saúde. Apenas produtos com regularização para uso alimentar são permitidos.
Diante desse cenário, os Confeiteiros passaram a rever práticas e a buscar alternativas que conciliem estética e segurança. Assim como, Nutricionistas fazem alertas sobre os riscos e apontam caminhos. A discussão se amplia para além da fiscalização e envolve escolhas conscientes, tanto na produção, quanto no consumo.
Ficou interessado (a) e quer entender melhor sobre esse assunto? Continue lendo.
PRINCIPAIS CUIDADOS
A reportagem da Rede Food Service conversou com a Nutricionista Luciana Nunes, especializada no segmento materno infantil, para falar sobre os riscos ligados aos brilhos. De acordo com ela, ao utilizar glitter na confeitaria, o principal cuidado que os profissionais precisam ter é a garantia de que todos os elementos utilizados sejam devidamente classificados como próprios para consumo humano.

Isso inclui verificar a rotulagem, a composição e a regularização junto à autoridade sanitária competente. “É fundamental utilizar apenas produtos com especificação ‘comestível’ ou ‘aprovado para uso em alimentos’, respeitando as recomendações de uso do fabricante”, diz.
Nunes ainda destaca a importância de manter boas práticas de manipulação para evitar contaminações cruzadas e assegurar a procedência dos insumos.
GLITTER COMESTÍVEL X DECORATIVO
Como já citado por Nunes, para diferenciar um glitter comestível de um apenas decorativo, basta verificar atentamente a embalagem do produto. O rótulo deve apresentar uma descrição clara de que o item em questão é próprio para consumo, conter lista de ingredientes alimentícios e possuir registro ou regularização conforme as normas sanitárias.
“Já o glitter apenas decorativo costuma trazer indicações como ‘uso não comestível’, ‘decorativo’ ou ‘não ingerir’, além de não apresentar composição adequada para consumo humano. A ausência de informações claras no rótulo já deve ser encarada como um sinal de alerta”, dá a dica.
RISCOS À SAÚDE
Fique atento (a)! O uso de glitter decorativo na gastronomia representa um importante risco à saúde, uma vez que o produto pode conter substâncias não destinadas ao consumo humano, como metais pesados, plásticos ou corantes não alimentícios.
“A ingestão pode causar irritações no trato gastrointestinal, reações alérgicas e, em casos mais graves, toxicidade, dependendo da composição. Além disso, há risco cumulativo quando há exposição frequente, especialmente em crianças”, detalha Nunes.
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ALTERNATIVAS SEGURAS
Para manter o apelo visual conferido pelo glitter, além do produto realmente comestível, o mercado já apresenta outras alternativas seguras.
Nunes, cita, por exemplo, os pós brilhantes comestíveis, os corantes alimentícios aprovados, as folhas de ouro ou prata comestíveis, confeitos certificados e técnicas de acabamento que utilizam ingredientes naturais, como frutas, cacau, açúcar e gelatinas. “A escolha deve sempre priorizar produtos regulamentados e fornecedores confiáveis, garantindo estética, mas sem comprometer a segurança.”
CONSUMIDORES MAIS CONSCIENTES
De acordo com Nunes, é possível já sentir um aumento da conscientização do público sobre esse e outros assuntos ligados à segurança dos alimentos, um fenômeno impulsionado pelo maior acesso à informação e pela atuação dos profissionais da área de saúde.
“No entanto, ainda há lacunas importantes, especialmente na rotulagem clara, na fiscalização de produtos comercializados e na educação de profissionais e consumidores. É necessário avançar na padronização das informações, fortalecer a vigilância sanitária e ampliar ações educativas para evitar o uso inadequado de produtos não comestíveis em alimentos”, alerta.
RECOMENDAÇÕES DE QUEM FAZ
Juliana Costa, que atua como Professora de Confeitaria, com anos de experiência na área, reforça que a primeira regra para garantir escolhas boas e seguras é verificar se o produto é 100% comestível. “Não apenas atóxico ou decorativo”, destaca.
Para os profissionais que desejam um brilho bonito e seguro, ela recomenda o uso de pós perolados comestíveis, com certificação alimentar, e os pós dourados ou prateados, próprios para consumo.

Costa explica que, no início do movimento, quando o glitter em bolos e em outros artigos da confeitaria virou tendência, ela costumava utilizar o produto, porém ainda sem o conhecimento que possui atualmente. “Era um período em que ainda havia muita confusão no mercado, com a tendência em alta e clientes enlouquecidos pelos bolos com glitter. Isso aquecia muito as vendas. Então, já utilizei o item sem ter conhecimento que o produto usado não era comestível, mas, hoje, com o conhecimento que possuo, não uso de jeito nenhum, nem se o cliente pedir, pois é necessário garantir a segurança dos nossos consumidores e alunos”, comenta.
Inclusive, essa confusão de informações citada por Costa, foi gerada, em parte, pela forma como os glitters eram – e às vezes ainda são – apresentados no varejo, com artigos apenas decorativos expostos em prateleiras junto a itens comestíveis, o que pode levar ao uso indevido.
Por isso, a atenção deve ser constante. Não basta encontrar o produto na seção de artigos comestíveis, a verificação do rótulo é indispensável.
IMPACTO FINANCEIRO
Por outro lado, o uso de alternativas comestíveis traz um novo desafio para o setor de confeitaria: como conciliar segurança do alimento, resultado visual e viabilidade de custo?
Costa esclarece que essas substituições podem sim impactar o valor final do produto, isso porque os insumos comestíveis costumam ser mais caros. “Mas, estamos falando de um custo que, sem dúvida, deve ser encarado, pois a segurança está em primeiro lugar”, orienta.

Para conseguir diminuir os custos e ainda operar com valores estratégicos no mercado, a Professora de Confeitaria recomenda a utilização do glitter comestível de forma estratégica. “É possível usar sem aplicar muito no bolo, apenas o suficiente. A técnica, quando bem executada, garante menos produto e um melhor resultado”, diz.
De acordo com Costa, outro ponto muito importante para uma precificação correta e competitiva é conscientizar os clientes sobre o valor agregado do produto. “Precisamos educar o nosso público para que saibam a importância de um produto bonito, de qualidade, gostoso e seguro.”
RECEITA DE GLITTER COMESTÍVEL E CASEIRO
Para quem busca soluções mais acessíveis, o glitter comestível também pode ser feito de forma artesanal. Costa compartilha uma receita. E, para reproduzi-la, você vai precisar de:
- 240 ml de água
- 15 gramas de amido de milho
- Corante alimentício da sua preferência (opcional)
- Pó perolado comestível
Modo de preparo
- Dissolva o amido de milho na água e adicione o corante alimentício e o pó perolado comestível.
- O corante pode ser utilizado a gosto. Leve ao fogo até ficar bem espesso, com textura de mingau.
- Em seguida, espalhe uma camada bem fina em um tapete de silicone e leve ao forno por, em média, 20 minutos ou até secar completamente.
- Assim que esfriar, triture no liquidificador e passe na peneira. Depois, está pronto para utilizar.
“Quanto mais fina a camada, mais delicado fica o acabamento. Com essa receita, o produto tem uma validade média de até 30 dias”, dá a dica.
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Anna Katia Cavalcanti
Jornalista formada em Comunicação Digital, com habilitação em Jornalismo, e pós-graduada em Marketing Digital e Mídias Sociais. Atua como repórter, assessora de imprensa e social media. Tem passagens pelas editorias de Cultura, Cidades e Online do jornal Diario de Pernambuco e acumula participações em projetos editoriais e institucionais.
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