Pescados na Páscoa: como garantir qualidade e segurança no período de maior consumo

Artigo Exclusivo de Dra. Fernanda Sanjiorato e Dra. Karla Vilaça para a Rede Food Service

Pescados na Páscoa: como garantir qualidade e segurança no período de maior consumo - Foto: RFS

 

A Semana Santa representa, historicamente, o período de maior consumo de pescados no Brasil. Durante esse intervalo, a demanda por peixes e frutos do mar pode aumentar significativamente, impulsionada por tradições culturais e religiosas que estimulam a substituição das carnes vermelhas por preparações à base de pescado. Para o setor de food service, esse cenário representa uma importante oportunidade comercial, mas também exige atenção redobrada à segurança alimentar.

 

O aumento do volume de compras, a entrada de novos fornecedores e o ritmo acelerado das operações ampliam os riscos associados à cadeia de frio, à contaminação cruzada e à ocorrência de doenças transmitidas por alimentos (DTA). Nesse contexto, garantir a qualidade sanitária dos pescados exige planejamento, controle rigoroso e capacitação das equipes envolvidas na manipulação.

 

Alta Perecibilidade: por que o pescado exige mais cuidado

 

Os pescados estão entre os alimentos de maior perecibilidade no setor alimentício. Sua composição, rica em proteínas, elevada atividade de água e presença de ácidos graxos poli-insaturados,  favorece processos rápidos de deterioração microbiológica e oxidativa.

 

Quando expostos a temperaturas inadequadas, microrganismos naturalmente presentes no ambiente ou no próprio alimento podem se multiplicar rapidamente. Entre os principais agentes associados à deterioração e aos riscos sanitários estão bactérias dos gêneros Pseudomonas, Shewanella e Listeria monocytogenes.

 

Em condições desfavoráveis de armazenamento, a qualidade sensorial e sanitária do pescado pode ser comprometida em poucas horas, tornando essencial o controle rigoroso da temperatura ao longo de toda a cadeia produtiva.

 

Por que os riscos aumentam durante a Páscoa

 

Datas sazonais como a Semana Santa costumam pressionar a logística do setor de alimentação. Aumento repentino da demanda, prazos reduzidos para entrega e ampliação do número de fornecedores podem gerar situações em que os controles sanitários se tornam mais vulneráveis.

 

Entre os principais fatores de risco observados nesse período estão:

  • maior tempo de exposição do produto fora da refrigeração adequada;
  • sobrecarga de câmaras frias e equipamentos de armazenamento;
  • aceleração de processos de recebimento e manipulação;
  • inclusão de novos fornecedores sem avaliação sanitária completa.

 

De acordo com as diretrizes sanitárias vigentes, pescados frescos ou resfriados devem ser mantidos em temperaturas próximas de 0 °C, preferencialmente entre 0 °C e 4 °C. Já os pescados congelados devem permanecer em temperaturas iguais ou inferiores a –12 °C, sendo ideal a manutenção a –18 °C para garantir maior estabilidade durante o armazenamento.

 

Pequenas variações fora dessas faixas podem iniciar rapidamente processos de deterioração e comprometer a segurança do alimento.

 

Avaliação de fornecedores e rastreabilidade

 

A seleção criteriosa de fornecedores é uma das principais barreiras de proteção sanitária para o food service. Em períodos de alta demanda, como a Páscoa, a tendência de incorporar novos parceiros comerciais deve ser acompanhada de uma análise técnica rigorosa.

 

Entre os documentos essenciais que devem ser avaliados estão:

  • registro em sistema de inspeção oficial (SIF, SIE ou SIM);
  • licença sanitária vigente;
  • comprovação de transporte refrigerado adequado;
  • documentação que comprove origem e procedência do produto.

 

Além disso, a rastreabilidade mínima deve permitir identificar:

  • espécie do pescado e forma de apresentação (inteiro, filé, postas);
  • número do lote;
  • data de produção ou embalagem;
  • prazo de validade;
  • condição de conservação (resfriado ou congelado);
  • identificação do fornecedor responsável.

 

A rastreabilidade é uma ferramenta fundamental para a gestão de riscos. Em caso de irregularidades, ela permite agir rapidamente, identificando a origem do problema e evitando impactos maiores na operação.

 

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Recebimento: o ponto mais crítico da operação

 

O momento do recebimento é uma das etapas mais sensíveis da cadeia de controle sanitário. Grande parte das perdas de qualidade ocorre justamente nessa fase, quando o alimento pode permanecer tempo excessivo fora da refrigeração.

 

Boas práticas no recebimento incluem:

  • descarregamento rápido e direcionamento imediato para a câmara refrigerada;
  • verificação da integridade das embalagens;
  • análise sensorial do produto (odor, aparência e presença de excesso de líquido);
  • medição da temperatura com termômetro apropriado antes da aceitação da entrega;
  • aplicação do sistema PEPS (Primeiro que Entra, Primeiro que Sai).

Esses procedimentos ajudam a garantir que o produto recebido esteja dentro das condições adequadas para consumo.

 

Armazenamento e descongelamento seguros

 

Após o recebimento, o armazenamento adequado é essencial para preservar a qualidade do pescado.

 

Algumas práticas recomendadas incluem:

  • separação física entre pescados crus e alimentos prontos para consumo;
  • armazenamento do pescado cru nas prateleiras inferiores da câmara fria;
  • evitar sobrecarga de equipamentos de refrigeração;
  • identificação clara das embalagens após o porcionamento.

 

As etiquetas devem conter, no mínimo:

  • nome do produto;
  • data de abertura ou manipulação;
  • prazo de validade interno.

 

No processo de descongelamento, o método mais seguro é a realização sob refrigeração, permitindo que o alimento retorne gradualmente à temperatura adequada sem ultrapassar a chamada “zona de perigo microbiológico”.

 

Quando necessário acelerar o processo, pode-se utilizar água corrente fria. Métodos como descongelamento à temperatura ambiente ou imersão prolongada em água parada devem ser evitados, pois favorecem a multiplicação bacteriana.

 

Erros comuns que comprometem a segurança do pescado

 

Alguns equívocos operacionais são frequentemente observados em cozinhas profissionais durante períodos de alta demanda.

 

Entre os mais comuns estão:

 

No recebimento

  • conferir apenas a nota fiscal sem verificar temperatura;
  • aceitar embalagens danificadas ou com excesso de líquido;
  • deixar o pescado aguardando na área de descarga.

No armazenamento

  • misturar pescado cru com hortifrúti ou alimentos prontos;
  • sobrecarregar a câmara fria;
  • armazenar produtos sem identificação adequada.

Na manipulação

  • descongelar o pescado à temperatura ambiente;
  • utilizar os mesmos utensílios para alimentos crus e preparados;
  • recongelar produtos que sofreram ruptura prolongada da cadeia de frio.

A prevenção desses erros depende de treinamento contínuo da equipe e da padronização de procedimentos operacionais.

 

Conclusão

 

A Semana Santa representa uma oportunidade importante para o setor de food service ampliar vendas e diversificar o cardápio. No entanto, o aumento do consumo de pescados exige planejamento sanitário rigoroso para garantir que a expansão da demanda não comprometa a segurança dos alimentos.

 

A combinação entre seleção criteriosa de fornecedores, controle de temperatura, rastreabilidade, boas práticas de manipulação e capacitação das equipes é fundamental para manter a qualidade do produto servido ao consumidor.

 

Mais do que atender a exigências regulatórias, esses cuidados fortalecem a credibilidade do estabelecimento e demonstram compromisso com a saúde pública. Em um mercado cada vez mais atento à segurança alimentar, garantir a integridade do pescado desde o recebimento até o prato final é uma responsabilidade estratégica para qualquer operação de food service.

 

Referências técnicas

  • Resolução RDC nº 216/2004 — Regulamento Técnico de Boas Práticas para Serviços de Alimentação.
  • Resolução RDC nº 275/2002 — Regulamento Técnico de Procedimentos Operacionais Padronizados.
  • Ministério da Pesca e Aquicultura. Consumo de pescados no Brasil.
  • Food Code 2022 — Chapter 3: Food.
  • Microorganisms in Foods 6: Microbial Ecology of Food Commodities.

 

 

curadoria Dra Fernanda Sanjiorato Dra Karla Vilaca
Dra. Fernanda Sanjiorato e Dra. Karla Vilaça Dra. Fernanda Sanjiorato e Dra. Karla Vilaça
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Dra. Fernanda Sanjiorato, formada pela Universidade Anhembi Morumbi, Pós graduada em Nutrição Aplicada à Prática Clínica pelo Centro Universitário Ítalo Brasileiro com curso de extensão no Programa Nacional de Alimentação Escolar pela Unifesp – CECANE, Sócia-fundadora da NUTRENZA Consultoria e Assessoria Nutricional e Dra. Karla Vilaça, formada pelo Centro Universitário São Camilo, Pós graduada em Vigilância Sanitária em Nutrição, Sócia-fundadora da NUTRENZA Consultoria e Assessoria Nutricional.

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