Marie França: entre cozinha, gestão e formação, a Chef constrói atuação multifacetada no food service

Com trajetória que transita por diferentes frentes do setor, a Chef Marie França reúne experiência prática, formação acadêmica e foco no desenvolvimento de pessoas

Chef Marie França - Foto: Divulgação

 

A história de Marie França com a gastronomia não começa na cozinha profissional, nem dentro de uma sala de aula. Ela se inicia antes disso, em vivências afetivas que passam pela rotina de trabalho da família, pelo contato direto com os alimentos e por uma curiosidade que foi crescendo de forma natural, sem necessariamente apontar, naquele momento, para uma carreira. Era mais prazer. Amor. Vontade.

 

Ao longo do tempo, esse interesse ganhou direção e encontrou espaço para se desenvolver. Entre oportunidades, encontros e escolhas feitas no caminho, a gastronomia deixou de ser apenas uma habilidade para se consolidar como profissão. É a partir desse percurso que a Chef construiu uma atuação que até hoje dialoga com diferentes áreas do setor, sem nunca se desconectar das origens ou desviar da missão de formar e inspirar novos profissionais.

 

Atualmente, França — que acumula experiências em grandes empresas do setor alimentício e traz na trajetória uma longa passagem pela docência no Ensino Superior — se dedica à Panimix e ao restaurante Famiglia Giuliano, onde assina o desenvolvimento do cardápio e conduz eventos. Em paralelo, a Chef desenvolve novos projetos na área de Gestão e avança em sua formação acadêmica, com foco em Gestão Empresarial. Acompanhe!

 

ASSINATURA PROFISSIONAL

 

O nome de batismo da Chef é Maria da Conceição França da Silva. Profissionalmente, ela se tornou Marie França por intervenção de um Professor do curso de Gastronomia. “Quando fiz um curso do Senac, um dos meus primeiros professores foi Renato Valadares, que, hoje, é Chef de um dos maiores restaurantes do Recife. Ele me olhou e falou: ‘seu nome é Maria? Toda Maria para mim é Marie. Vou te chamar de Marie. Como meu sobrenome já é França, gostei da combinação. Assim, adotei o Marie”, relembra, divertindo-se.

 

Marie França: entre cozinha, gestão e formação, a Chef constrói atuação multifacetada no food service
Chef Marie França – Foto: Divulgação

 

 

Ela explica ainda que seguir os ensinamentos desse mesmo Professor lhe trouxe conhecimento e perspectivas na vida profissional. “Eu digo que, na gastronomia, ele foi o meu padrinho, me adotou e me deu oportunidades.”

 

Segundo Marie França, foi com o auxílio dele que ela ingressou na área de eventos, ainda em 2010, logo depois de concluir o curso.

 

Hoje, no campo acadêmico, Marie França é Gastróloga com especialização em Alta Gastronomia e está na reta final do mestrado em Gestão Empresarial.

 

Construir essa jornada acadêmica é uma grande realização para a menina que cresceu em uma área carente do município de Jaboatão dos Guararapes, em Pernambuco. “Desde sempre, em tudo o que faço, acredito no propósito de Deus. Ele tem um desígnio para cada pessoa. E acredito que a minha missão de vida passe por inspirar, aprender e apoiar o próximo. Quero servir, realizar meus sonhos e motivar outros a conseguirem o mesmo”, diz a Chef.

 

UMA RELAÇÃO AFETIVA COM A GASTRONOMIA

 

À reportagem, ela explica que o seu contato com a gastronomia começou desde muito cedo, ainda criança. Filha de comerciantes, Marie França costumava acompanhar os pais nas idas às feiras livres. “Eles trabalhavam com vendas de proteínas e atendimento ao cliente. Vendiam frango, carnes, ovos… Então, comecei a ter contato com a matéria-prima da gastronomia ainda pequena”, diz.

 

O empreendedorismo também sempre esteve presente na rotina da família. “Sempre admirei a minha mãe, que se mantinha no centro do trabalho. Ela sempre foi líder de equipe e atuava com muita responsabilidade e dedicação ao trabalho. Eu pude acompanhar e ver isso de perto”.

 

Marie França recorda que, quando criança, costumava admirar as bancas bonitas montadas na feira, com suas cores, aromas e produtos. Ela conta que quando tinha cerca de oito anos, havia uma barraca de temperos e ervas localizada em frente à granja que a sua mãe era responsável. “Na banca, tinha uma família que ficava moendo os temperos, como o cominho e a pimenta. Lembro que, quando passava por esse lugar, bem cedo, por volta das 4h da manhã, eu parava, fechava os olhos e ficava me encontrando ali no meio daqueles aromas. Isso aguçou muito a minha vontade de querer entender e fazer gastronomia”, detalha.

 

Marie França: entre cozinha, gestão e formação, a Chef constrói atuação multifacetada no food service
Chef Marie França com a equipe – Foto: Divulgação

 

Em casa, era sua mãe que cozinhava. E não só para a família. França comenta que, além do trabalho regular na granja, a matriarca também fazia salgados, bolos e doces para vender na feira. “Eu ajudava porque via que ela trabalhava muito e ficava bastante cansada. Tanto que, com nove anos de idade, eu pedi para ela me ensinar a fazer o almoço para que ela não precisasse chegar em casa, às 21h, e ainda cozinhar para a gente. Com isso, o meu interesse só aumentou.”

 

Marie França ressalta que o pai também contribuía com a alimentação e cuidado com os filhos. “Mas, eu queria fazer algo bom, próximo ao que minha mãe fazia”, diz.

 

Outro ponto marcante nessa relação afetiva com a gastronomia foi o seu aniversário de 10 anos. “Senti vontade de fazer o bolo do meu aniversário. Havia o interesse, mas eu não sabia como fazer. Então, quando as minhas tias faziam, eu ficava olhando e decorando o processo. Perto dos meus 10 anos, eu coloquei a ideia em prática. Fiz o convite, entreguei às vizinhas e pedi para ninguém levar presentes. No lugar disso, eu queria um ingrediente do bolo. E assim aconteceu. Fiz meu próprio bolo”, orgulha-se.

 

Com a realização, a então menina viu que era capaz de se aventurar com sucesso na cozinha e quis ir mais longe. Marie França explica que morava em uma área muito humilde, onde a maioria das mulheres, donas de casa, até saia para trabalhar, mas ainda assim costumava manter uma atividade extra feita em casa e, normalmente, ligadas à cozinha. “Eu tinha uma vizinha que fazia doces, outra bolo de noiva, outra salgados, lasanhas e outros pratos… E eu sempre ia para perto dessas mulheres que cozinhavam, olhando, observando. Isso aumentou a minha vontade de também fazer algo com alimentos. Mas, até então, eu não enxergava isso como profissão, apenas como hobby.”

 

A MUDANÇA DE CHAVE

 

A vida seguiu. E, dessa forma, o primeiro contato profissional de Marie França com a gastronomia só foi acontecer depois dos 18 anos da Chef. “Nesse período, a minha ideia era fazer Enfermagem. Porém, eu acabei me frustrando porque não passei no vestibular. Então, comecei a pensar em algo que me deixasse feliz.”

 

Nesse cenário, a Gastronomia surgiu como primeira opção. Marie França, que sempre teve vontade de empreender, decidiu procurar um curso para se especializar, uma vez que já fazia doces e pasteis para vender na frente de casa.

 

Ela recorda que, na época, só havia uma faculdade de Gastronomia disponível no Recife, indicada a ela por uma amiga. “A partir disso, fui conhecendo novos profissionais, outros estudantes e me encontrei com as oportunidades desse universo. Eu acredito muito em pessoas, que uma lança a outra, e que Deus cuida do caminho para possibilitar que você entenda sua missão e propósito. E um dos caminhos que encontrei na Gastronomia foi a consultoria.”

 

OUTROS CAMINHOS PROFISSIONAIS

 

Uma amiga, que trabalhava com vendas em uma grande distribuidora de alimentos, ajudou Marie França nessa caminhada profissional. “Foi por meio dela que conheci o mercado de food service. Com isso, tive acesso a vários estabelecimentos e negócios do setor. Isso fez com que eu entendesse o meu propósito de formar profissionais”, explica.

 

A Chef conta que conhecer líderes, gestores e professores de Gastronomia lhe abriu oportunidades para entrar na docência do Ensino Superior. “Eu passei oito anos nesse processo, me dividindo entre trabalhos com consultoria, eventos e docência. Essa rede de relacionamentos fortaleceu muito o que eu sou hoje. Inclusive, sigo em contato com esse grupo de profissionais que lá atrás foram os primeiros a acreditar em mim. Hoje, como retribuição ao mercado e até para inspirar outras pessoas, faço o mesmo. Isso é algo que acredito muito.”

 

Ao explicar sua vida profissional, Marie França esclarece que sempre foi muito dinâmica, que está acostumada e gosta de trabalhar, simultaneamente, em diferentes frentes. Para ela, à primeira vista, dar conta de múltiplas tarefas pode parecer complexo, mas a verdade é que a dinâmica funciona muito bem.

 

Marie França: entre cozinha, gestão e formação, a Chef constrói atuação multifacetada no food service
Chef Marie França compartilhando conhecimentos – Foto: Divulgação

 

Já no ramo de eventos, ela ingressou com a ajuda do mesmo Professor e Consultor que lhe ajudou com o nome profissional, Renato Valadares. “Desde que fui para o meu primeiro estágio, fiquei na área fazendo tudo relacionado a eventos. Com isso, conheci diversos outros profissionais”, aponta.

 

Foi em uma dessas oportunidades, criadas a partir da rede de contatos e amigos que Marie França fez ao longo da trajetória, que lhe rendeu o trabalho mais longevo da sua vida profissional. “Em um domingo, precisei substituir o profissional que era responsável pelas frituras do restaurante Spettus. Assumi a função por um dia. Como eu já tinha certa vivência no meu dia a dia com a fritura, antes mesmo de começar minha vida profissional, por causa da venda dos pasteis, fiz tudo de forma muito tranquila. No final do dia, fui chamada pelo proprietário da casa. Ele queria me conhecer, parabenizar e ainda oferecer uma oportunidade de trabalho em um outro restaurante de sua propriedade”, relembra.

 

A Chef se refere ao empresário gaúcho Julião Konrad, responsável por diversos empreendimentos gastronômicos de sucesso no Recife. Ele ofereceu a Marie França trabalho no restaurante Famiglia Giuliano, iniciando assim uma relação profissional que segue até hoje, 15 anos depois. “Comecei desenvolvendo a parte do buffet do almoço. Hoje, sou responsável, ao lado do Chef Ricco de Lira e junto a minha equipe, por desenvolver todo o cardápio de eventos da casa. Também acompanho todos os eventos sociais e corporativos do restaurante. É um trabalho que mescla consultoria e desenvolvimento. E sou muito grata por isso a toda família Konrad”, detalha.

 

PAUSA E RECOMEÇO

 

Foi nesse ritmo acelerado que a pandemia da Covid-19 chegou e encontrou a Chef. “Nessa época, eu passei por um processo bem difícil no âmbito pessoal, então parei para dar uma organizada na vida. Até me ausentei do Recife. Passei seis meses fora para decidir como seriam meus próximos passos.”

 

Dessa forma, em 2020, Marie França saiu da docência e das consultorias e seguiu seu processo de autoconhecimento. “Essa pausa foi muito importante para eu me reorganizar. Segui apenas com a Famiglia Giuliano”, conta.

 

Porém, mais uma vez, a vida colocou em seu caminho pessoas para lhe guiar rumo a novos caminhos. “Meu relacionamento com o mercado e outros profissionais sempre foi muito forte, aberto e genuíno. Assim, fui convidada para fazer parte do time de consultores da BRF Brasil, ficando responsável pela área do Nordeste.”

 

Nessa função, Marie França passou aproximadamente um ano e meio. Na sequência, surgiu uma oportunidade na Nestlé. “Fui convidada, por meio de um amigo que já era Consultor, para fazer um teste em São Paulo e consegui a vaga de Consultora. Isso foi muito importante porque pude trabalhar diretamente com a confeitaria, o que sempre foi um presente nos meus trabalhos com a Nestlé.”

 

A Chef explica que as experiências com a BRF e com a Nestlé lhe renderam acesso e conhecimento pelo Brasil inteiro. “Participei de inúmeros treinamentos e desenvolvimento de clientes. Tudo isso paralelamente ao trabalho com a Famiglia Giuliano.”

 

Marie França: entre cozinha, gestão e formação, a Chef constrói atuação multifacetada no food service
Chef Marie França com o marido – Foto: Divulgação

 

Para dar conta de tudo, Marie França conta com a ajuda do marido, que também é Chef de Cozinha. “Hoje, ele dá todo o suporte no restaurante quando estou ausente, e é o responsável pelos pratos quentes. Todo o time que mantenho comigo é incrível. E digo com todo orgulho e gratidão que 50% da minha equipe é formada por ex-alunos, pessoas que conheci por meio da docência e que puderam ter acesso ao mercado e evoluir. Hoje, eles trabalham comigo sem essa de professor e aluno. São colegas profissionais junto comigo”, celebra.

 

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NOVOS PROJETOS

 

No final do último ano, a Chef decidiu, mais uma vez, se aventurar e expandir os horizontes, agora, na área de Gestão. “Depois de um convite, decidi entrar na Panimix, que, hoje, é uma indústria e uma central de produção focada em panificação e confeitaria. Então, atualmente, a Marie França Gastronomia tem uma operação de buffet em parceria com a Famiglia Giuliano e uma parceria de gestão com a Panimix”, detalha.

 

Marie França: entre cozinha, gestão e formação, a Chef constrói atuação multifacetada no food service
Produto Panimix – Foto: Divulgação

 

De acordo com a Chef, a Panimix é um projeto que nasceu há pouco tempo, por isso exige muita dedicação e atenção aos detalhes. Ainda há muitos desafios ligados à implantação, testes e ajustes, mas ela segue firme no propósito.  “Vamos fazer cinco meses de funcionamento, então, ainda temos muito a desenvolver e contribuir para o mercado”, afirma.

 

Outro plano importante para Marie França neste ano de 2026 é finalizar, entregar e defender a sua dissertação de mestrado. “Quero focar nisso e partir para os próximos planos voltados à gestão e à educação de futuros profissionais”, revela.

 

DESAFIOS DE MERCADO

 

França comenta que, de forma geral, enxerga o mercado de gastronomia em crescimento, porém com grandes desafios a serem superados. Um deles, e para ela uma das pautas mais importantes da atualidade, é sobre as cargas excessivas de trabalho. “A cozinha não é nada fácil. A gente sabe o quanto precisamos nos dedicar, nos doar, ficar horas em pé, perder finais de semana… Então, é importante olhar para o profissional que faz a cozinha acontecer. Precisamos cuidar das pessoas”, aponta.

 

Para a Chef, é essencial que o mercado ajuste a carga horária do setor para que haja equilíbrio. “Quando o bem-estar é valorizado, o profissional passa a trabalhar com mais vontade. Hoje, as pessoas estão tendo um olhar mais criterioso sobre as cargas excessivas, o que tem reflexos diretos na dificuldade do mercado em conseguir mão-de-obra qualificada.”

 

De acordo com Marie França, a situação só irá melhorar quando houver uma reformulação que possa reduzir os horários desmedidos e que promova a valorização das pessoas que estão nos bastidores, fazendo tudo acontecer.

 

DICA DA CHEF

 

Para quem tem o sonho de seguir no setor, Marie França deixa uma dica, pois, para ela, é importante que os profissionais de hoje abram o olhar para a tecnologia. “Atualmente, temos vários equipamentos que podem dar muito suporte na escala de produção. Tecnologia é essencial para quem trabalha com volumes altos.”

 

Ela ainda reforça que o artesanal, o slow food, tem seu charme, valor e importância, mas isso não anula a padronização e rapidez esperadas de quem trabalha com produção em grandes volumes. “A gente precisa estudar essas melhorias que o mercado pode nos oferecer, tanto em formação, como em produtividade e gestão de tempo.”

 

Marie França: entre cozinha, gestão e formação, a Chef constrói atuação multifacetada no food service
Eventos conduzidos pela Chef Marie França – Foto: Divulgação

 

Aos que estão começando agora, a Chef deixa um conselho: “estude todos os fundamentos da Gastronomia. Entenda as bases da comida, conheça os clássicos. Conhecimento é importante para que você se desenvolva e evolua. Quando você conhece a base, a estrutura, vai saber como formar cada degrau da sua história com técnica e qualidade.”

 

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Jornalista formada em Comunicação Digital, com habilitação em Jornalismo, e pós-graduada em Marketing Digital e Mídias Sociais. Atua como repórter, assessora de imprensa e social media. Tem passagens pelas editorias de Cultura, Cidades e Online do jornal Diario de Pernambuco e acumula participações em projetos editoriais e institucionais.

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