DE CHEF PARA CHEF: O SABOR DA VOCAÇÃO

No Dia Internacional do Chef de Cozinha, nomes da culinária brasileira refletem sobre os desafios, conquistas e a dedicação que transforma cada prato em uma obra de amor

Chef1
DE CHEF PARA CHEF: O SABOR DA VOCAÇÃO - Foto: Divulgação - Rede Food Service

 

Entre aromas, panelas e histórias que nascem no calor da cozinha, há um ingrediente que une todos os grandes chefs: a paixão pelo que se faz. E o dia 20 de outubro, data que marca o Dia Internacional do Chef de Cozinha, nos convida a ouvir sobre o momento destes profissionais que transformam o ato de cozinhar em arte, amor e expressão.

 

Afinal, por trás de cada prato servido, há longas jornadas e um talento que vai muito além do fogão: mais do que cozinhar, ser chef, hoje, significa liderar, criar, ensinar, empreender e, mesmo nos dias mais intensos, seguir devotado à gastronomia.

 

Celebrando a data, a Rede Food Service, com apoio da Tramontina Hospitality, reuniu chefs de destaque, em diferentes áreas de atuação no cenário da gastronomia no Brasil, para falar sobre os caminhos da profissão, os desafios que ainda temperam o dia a dia nas cozinhas e o que os move a seguir reinventando sabores e inspirando novos talentos.

 

 A ESSÊNCIA E A PAIXÃO PELO OFÍCIO

 

Antes de qualquer prato, vem o propósito. É nele que nasce a verdadeira essência de quem escolheu viver da gastronomia. Para Manu Buffara, eleita a Melhor Chef Mulher da América Latina em 2022 pela Academia 50 Best e colecionadora de prêmios e honrarias durante a sua trajetória, revela que, quando cozinha, costuma pensar em sua infância. “Penso na cozinha da minha avó, no cheiro de terra molhada depois da chuva… Ser chef é reviver isso todos os dias e tentar devolver, em forma de alimentos, o que a natureza me oferece. É um ato de amor e responsabilidade”, define ela, que comanda o Restaurante Manu, em Curitiba.

 

Chef2
A Chef Manu Buffara – Foto: Divulgação

 

Para Ana Luiza de Medeiros Leite, Subchefe do restaurante Tordesilhas, eleito pelo Prêmio SP Gastronomia, de O Globo, como o Melhor Restaurante Brasileiro em 2025, a percepção de que a gastronomia era mais do que uma paixão veio ao experimentar a energia do serviço e a adrenalina que só uma cozinha profissional proporciona. “Existe uma emoção única e indescritível em ver alguém provar o que você preparou e, com um sorriso, comparar aquele sabor ao de uma lembrança afetiva, como a comida de um familiar querido. É nesse instante que percebo que cozinhar vai muito além de uma técnica: é gesto de conexão, memória e amor”, conta ela, reforçando que o desejo genuíno de alimentar com propósito é uma parte importante de quem ela é como pessoa.

 

Elzio Callefi, Chef de Cozinha da Tramontina, comenta que, para ele, ser cozinheiro é uma completa realização pessoal e profissional. “Nasci e cresci nessa atmosfera da cozinha e hoje sempre digo que quando não estou no trabalho, estou na cozinha de casa; quando não estou cozinhando, estou pensando em cozinha, ou em ingredientes, ou em formas de como melhorar no dia a dia. Entendo ser chef como uma missão”, declara.

 

Chef19
Elzio Callefi, Chef de Cozinha da Tramontina – Foto: Divulgação

 

Para o Chef Luis Henrique Nicolette, “A cozinha é uma forma de vida. Toda a conexão que a gastronomia proporciona é pura riqueza. Ela é cultura, é história e é encontro. A gente entende um povo pela forma como ele cozinha e come”, aponta.

 

Nicolette ainda ressalta o poder que a comida tem de aproximar pessoas, culturas e universos distintos. Seja com uma família reunida à mesa, seja numa conversa de negócios, ou ainda em um momento descontraído entre amigos, a gastronomia se faz presente. “No fim, a cozinha é tudo isso: emoção, expressão e conexão.”

 

O Chef Luiz Farias, no mercado há mais de 40 anos, já eleito o melhor confeiteiro do mundo pela International Union of Bakers and Confectioners (UIBC), explica que, para ele, a virada de chave sobre sua paixão pela gastronomia aconteceu em meados dos anos 80. “Fui fazer um treinamento em seis países europeus, com algumas das melhores gastronomias do mundo, a serviço de uma empresa. Foi nesse momento que percebi que a gastronomia seria meu caminho de vida e isso mudou a minha história”, diz ele, que é natural de São Bento do Una, município do interior de Pernambuco.

 

 

Mas, e o que significa ser chef? Como esses profissionais de destaque encaram o ofício e esse título tão grandioso? Seria apenas uma profissão, uma missão ou mesmo uma arte?

 

Para Manu Buffara, ser chef é um modo de existir. “Não é apenas cozinhar, liderar uma equipe ou administrar um restaurante, é um olhar sobre o mundo. A cozinha é a ferramenta que escolhi para me expressar, cuidar das pessoas e transformar realidades. É profissão porque exige disciplina e entrega diária. Mas também é uma missão, porque acredito que a comida tem o poder de conectar e de curar. E é arte, porque carrega emoção, memória e beleza.”

 

Chef23
A Chef Heaven Delhaye – Foto: Divulgação

 

Com uma extensa bagagem profissional, a Chef Heaven Delhaye já acumula 29 anos de trabalho na cozinha, o que lhe permitiu atuar nas mais diversas frentes. “Acredito que já passei por todas as áreas imagináveis dentro de uma cozinha. E quando consegui virar chef do meu restaurante, pude tocar a gastronomia da maneira que eu acredito”, explica Delhaye, que comanda, no Rio de Janeiro, o Nonna Per Heaven, duas unidades do Heaven Cucina e o D’Heaven, que expandiu e inaugura este mês uma unidade em São Paulo.

 

Movida por desafios, Delhaye conta que nesse ofício, o que lhe motiva diariamente é o constante crescimento. “Eu acho que quando você vem do nada e tem a memória das dificuldades, da luta e de tudo o que isso envolve, mas também começa a chegar no patamar de pessoas que você admirava, tem a chance de trabalhar ao lado deles, fazer eventos, aprender, notar que muitos deles se tornam amigos… são acontecimentos que fazem você ver o quanto está conseguindo crescer. E isso é gratificante”, conta a Chef, que trabalha com a gastronomia desde os 11 anos de idade, sempre em família. Primeiro com um pequeno bistrô e hoje com cinco casas em dois estados brasileiros. “Sou eu, três irmãos e o meu pai, que ficam direto nos restaurantes. Meus irmãos ficam na cozinha e me ajudam a gerenciar as casas e o meu pai continua atendendo clientes no salão. Eu acho que não existe nada mais poderoso do que pessoas com o mesmo objetivo, com a mesma paixão.”

 

Chef11
Cesar Brandelli, Chef de Cozinha da Tramontina Hospitality – Foto: Divulgação

 

Cesar Brandelli, também Chef de Cozinha da Tramontina Hospitality, destaca que ser chef é profissão, missão e arte em equilíbrio constante. “É profissão porque exige técnica, gestão, disciplina e entrega diária. É missão porque envolve nutrir pessoas e proporcionar experiências que tocam emocionalmente. E é arte porque cada prato traduz identidade, sensibilidade e expressão criativa. Ser chef é transformar conhecimento e emoção em algo que possa ser sentido no sabor, na textura e na memória”, comenta ele.

 

Para o Chef Thiago Ribeiro, um especialista em Gastronomia Saudável conhecido popularmente como Chef Natural e por ser o criador do Método FOKUS, ser chef de cozinha é tudo isso junto, e um pouco mais. “É profissão, porque exige técnica, disciplina e estudo constante. É arte, porque transforma ingredientes simples em experiências que despertam emoção. E é missão, porque acredito que a comida tem poder de cura física, emocional e até espiritual”, explica.

 

De acordo com Ribeiro, ser chef é reconectar as pessoas com o prazer de comer bem e de se cuidar. “Para mim, é traduzir saúde em sabor e propósito em cada receita. É olhar para o passado, onde a comida era simples, natural e cheia de significado, e usar a inovação para trazer esse valor de volta à mesa. Ser chef é unir ciência, ancestralidade e afeto para transformar alimento em experiência e consciência.”

 

Quem leu a matéria da Rede Food Service, também gostou: Tramontina amplia presença no mercado de hospitalidade com novidades em três frentes: porcelanas, ultracongeladores e mesas integram solução completa da marca

 

O COTIDIANO E OS DESAFIOS DA PROFISSÃO

 

Nos últimos anos, com a popularização das redes sociais, programas de TV, filmes e reality shows gastronômicos, a ideia de que ser chef de cozinha é uma profissão glamourosa ganhou força. A imagem do chef como celebridade, alguém criativo e admirado, ajudou a aproximar o público desse universo, mas também criou uma percepção distante da realidade das cozinhas profissionais. Por trás das câmeras e das fotos bem produzidas, há longas jornadas, pressão constante e muito trabalho físico e emocional.

 

Chef12
Ana Luiza de Medeiros Leite, no restaurante Tordesilhas – Foto: Divulgação

 

Lidar com a pressão e o ritmo intenso de uma cozinha profissional pode ser um grande desafio para muitos cozinheiros. Sobre essa questão, Ana Luiza de Medeiros Leite, do restaurante Tordesilhas, comenta que, trabalhar o aspecto emocional dentro de uma cozinha é tão essencial quanto dominar as técnicas. “Compreendi que manter a calma e a concentração em uma posição de liderança é o que permite que a equipe funcione de forma harmoniosa, como uma verdadeira orquestra”, diz ela.

 

Leite ainda comenta que a pressão e o ritmo intenso são inevitáveis numa cozinha profissional, mas existem formas de se conduzir esse cenário com equilíbrio. “A organização antes do serviço transforma o resultado; e a comunicação, que é a base de tudo, mantém cada integrante conectado ao mesmo propósito. É nesse equilíbrio entre emoção, preparo e diálogo que o trabalho em uma cozinha realmente acontece”, dá a dica.

 

Chef24
O Chef Luiz Farias – Foto: Divulgação

 

Com décadas de experiência na gastronomia, o Chef Luiz Farias concorda. Ele explica que consegue conduzir a pressão e o ritmo intenso da cozinha, mantendo, principalmente, a calma e o foco, priorizando sempre a organização e a comunicação com a equipe. “Confie na preparação prévia e evite improvisos”, aconselha.

 

Com grande vivência gastronômica consultiva, o Chef Luis Nicolette observa que, para um profissional que está no mercado, os desafios são constantes e diários. “É preciso equilibrar criatividade e gestão. Fazer mais com menos, mantendo qualidade, sabor e originalidade. O que se torna uma pressão diária, ainda mais diante dos altos custos e da dificuldade de manter equipes motivadas e completas.”

 

Chef7
O Chef Luis Nicolette – Foto: Divulgação

 

Ele ainda aponta que um chef é, antes de tudo, é visto como um artista. Então sempre se espera dele uma obra-prima no prato, o que também gera esforços constantes. “No meu caso, como chef corporativo, o desafio é se reinventar o tempo todo. Ser uma ferramenta de valor para os clientes, captar tendências e transformá-las em produtos, ideias e soluções que impulsionem a evolução do mercado de alimentação”, detalha.

 

E quando o chef também é empreendedor e gestor, os desafios se multiplicam. São diários e atingem diferentes frentes. A Chef Delhaye detalha alguns deles. Para ela, um importante entrave do setor está ligado à contratação e retenção de mão de obra qualificada. “Conseguir reunir uma boa equipe, no Brasil, é uma grande dificuldade. Ainda mais no nosso caso, que temos casas grandes que, entre os dois estados, empregam, aproximadamente, 360 pessoas. Então, conseguir ter gente que realmente acredite na sua visão e que tenha os mesmos objetivos e ética de trabalho não é tão simples.”

 

Além da dificuldade de encontrar bons profissionais, outro desafio é retê-los na equipe. “Isso porque pessoas muito boas geralmente têm seus próprios sonhos e caminhos, então sim, esse é um grande desafio”, aponta Delhaye.

 

A Chef também cita a economia brasileira entre as barreiras enfrentadas pelos profissionais da área. “Honestamente, está bem difícil. O dinheiro de todo mundo está apertado no final de cada mês, então, como conseguir fazer uma boa comida, com insumos de qualidade, manter um bom local, uma boa estrutura, pagar o máximo possível para sua equipe, manter um preço atraente para o cliente e ainda conseguir fechar as contas do mês?”

 

Ela ainda evidencia que restaurantes sempre foram um dos bottom lines mais complicados do mercado, um dos negócios que mais abrem e fecham. “Estamos falando de um ramo muito difícil de sobreviver. Então sim, há desafios enormes e diários. Você tem que estar sempre trazendo novidades, e tem que fazer isso de forma que haja custo-benefício, inclusive para o seu cliente…Nas minhas casas, eu sempre falo que o objetivo não é trazer o cliente uma vez por mês. Se a gente conseguir ter um bom preço e um serviço completo que o leve duas vezes por mês ao estabelecimento, então estamos cumprindo o que queremos”, afirma a Chef.

 

E será que existe algum segredo para manter uma equipe unida e inspirada mesmo em um ambiente tão exigente quanto as cozinhas profissionais? Afinal, esse também é um dos entraves enfrentados diariamente pelos chefs que comandam times e restaurantes inteiros.

 

A Chef Danielle Johnnie, que está à frente da Trattoria da Dani e da Casa D, negócios focados na cozinha italiana, localizados no Recife, Pernambuco, revela que “depois de devanear muito sobre isso, decidi mudar meu método para engajar as pessoas. De forma prática: decidi investir nos meus líderes, mas não me refiro a questões financeiras. Eu investi todo o conhecimento que eu posso passar para eles, desde o perfil de liderança até a cultura organizacional, o que passa também pela conexão que eles precisam ter – e que o negócio demanda que eles tenham – , seja entre eles, deles com a empresa e deles com o time.”

 

Chef10
A Chef Danielle Johnnie – Foto: Divulgação

 

Segundo ela, a nova estratégia resultou numa importante e positiva mudança de gestão, com a equipe olhando cada vez mais para a conexão genuína entre as pessoas, o que, no final das contas, acaba chegando também nos clientes. “Então, eu, através dos meus líderes e da minha conexão com eles, e deles comigo e com o negócio, tenho conseguido fazer essa virada de chave. E tem sido lindo porque meus líderes estão dando um show. Hoje, por exemplo, eles participam de decisões estratégicas importantes, criam regras junto comigo. Eles não apenas têm participação nos lucros, mas entendem e participam dos dados financeiros da empresa, com acesso a várias informações relevantes para que trabalhem junto comigo para transformar números. Isso foi realmente uma virada de chave, um trabalho diferente para alcançar resultados diferentes”, detalha Johnnie, orgulhosa do trabalho profissional e humano que desenvolve.

 

Chef3
O Chef Yuri Machado – Foto: Divulgação

 

Já para Yuri Machado, Chef que comanda as caçarolas do Restaurante Cá-Já, também localizado na capital pernambucana, sendo conhecido por suas abordagens contemporâneas da culinária regional ao misturar técnica, memória afetiva e insumos nordestinos, o segredo de um time unido e motivado é tratar a cozinha como uma família com propósito. “Todo mundo ali precisa entender o porquê de estar fazendo o que faz, não só o prato, mas o sentimento por trás dele. Quando há verdade, respeito e espaço para crescer, o fogo vira combustível, não pressão”, aponta ele.

 

Outro fator que pode gerar insegurança e representar um importante desafio para muitos profissionais é a mudança que o papel de chef teve nos últimos anos. Como essa transformação é recebida? Como se adaptar às mudanças?

 

Para o Chef Thiago Ribeiro, com o passar dos anos, o papel do chef mudou completamente. “Hoje, não basta dominar técnicas ou comandar uma cozinha. O chef precisa ser educador, comunicador e agente de transformação social. O público quer entender o motivo de cada escolha: de onde vem o alimento, o impacto ambiental, o valor nutricional e o propósito por trás de cada prato”, comenta.

 

Chef4
O Chef Thiago Ribeiro – Foto: Divulgação

 

Mas, para ele, ainda assim algumas coisas devem permanecer imutáveis na arte de cozinhar: “o que nunca deve mudar é a essência: respeito pelo alimento e pelas pessoas. A cozinha é, antes de tudo, um ato de amor, de cuidado e de serviço. O ego não pode ser maior que a missão de nutrir.” De acordo com Ribeiro, o chef do futuro é aquele que entende que o alimento não é apenas combustível, mas sim cultura, saúde e conexão.

 

A Chef Manu Buffara também conclui que o papel do chef mudou muito. “Hoje o cozinheiro não está mais confinado à cozinha, ele participa de conversas sobre sustentabilidade, educação, saúde mental e impacto social. Passamos a entender que a gastronomia não termina no prato, ela começa no solo e continua na comunidade.”

 

Segundo a profissional, o que deve ser mantido sempre é a verdade do sabor, o respeito pelos ingredientes e o compromisso com quem produz e com quem come. “A humildade também. Não somos artistas intocáveis, somos parte de uma cadeia viva, que depende de mãos, de história e de tempo. É isso que me lembra todos os dias o porquê de fazer o que faço”, comenta Buffara.

 

Chef20
A Chef Heaven Delhaye – Foto: Divulgação

 

Sobre as mudanças ligadas à profissão, Elzio Callefi, Chef de Cozinha da Tramontina, destaca que uma das maiores transformações está relacionada à percepção da alta gastronomia. “Quando se fala em chef, a primeira coisa que vem à mente é a alta gastronomia. E essa foi a grande mudança. Hoje, a cozinha está mais acessível pelo próprio papel dos chefs que levantaram essa bandeira de levar uma experiência boa e acessível a todos. Esse é um grande papel e um desafio que não deve se perder nos próximos anos.”

 

Já para o Chef Cesar Brandelli, também da Tramontina Hospitality, com o tempo, o papel do chef evoluiu de executor e líder de cozinha para comunicador, gestor e agente de transformação social e ambiental. “Hoje o chef precisa entender de sustentabilidade, da importância da valorização de produtores locais, de nutrição e do comportamento do consumidor. O que nunca deve mudar é o respeito ao produto, à equipe e à essência da cozinha, que é o prazer genuíno de cozinhar e servir bem”, aponta ele.

 

Sobre o papel atual do chef, Delhaye explica à reportagem que veio de uma época em que os chefs de cozinha eram mais “rock star”, o que significa que adotavam um comportamento um pouco mais agressivo e dominador, algo muitas vezes potencializado por problemas relacionados ao consumo de álcool e outras drogas. Mas, na visão da profissional, hoje o cenário é outro. “Acredito que o papel do chef, de fato, mudou bastante. Hoje os profissionais são mais ponderados, são pessoas dispostas a ouvir, que unem a equipe e lideram com visão, por meio do exemplo. Eu acho que o chef que impõe sua vontade de forma agressiva na cozinha, ofendendo e jogando coisas, já não tem mais espaço”, diz ela.

 

Delhaye aponta que, ainda assim, obviamente, dentro de uma cozinha é preciso ter hierarquia. “E é muito importante que cada um cumpra seu papel e tenha respeito. Estamos procurando construir uma cozinha um pouco mais equilibrada”, afirma.

 

Quem leu a matéria da Rede Food Service, também gostou: Tramontina lança linha de fornos combinados em parceria com a Rational Brasil

 

INSPIRAÇÃO, CRIATIVIDADE E EVOLUÇÃO

 

A inspiração é essencial para alimentar o processo criativo dos chefs, e ela pode vir de qualquer lugar: de uma lembrança de infância, de um ingrediente simples, de uma viagem ou mesmo de outras pessoas. As fontes são inúmeras, mas todas cumprem o mesmo objetivo, que é ajudar o chef a renovar o olhar e transformar emoções em experiências à mesa.

 

Para a Chef Manu Buffara, a reinvenção vem da escuta. “Eu aprendo observando o que acontece fora da cozinha, as mudanças do clima, o comportamento das pessoas, o que nasce e o que desaparece da terra. Viajar me ensina muito, mas também aprendo profundamente quando volto para casa, caminho por Curitiba, converso com um produtor ou vejo uma criança experimentando um legume pela primeira vez”, diz ela.

 

Chef5
A Chef Manu Buffara – Foto: Divulgação

 

A Chef explica que gosta de pensar que está sempre em processo. “Leio, provo, erro, começo de novo. E, principalmente, me permito mudar. A cozinha não é um ponto fixo, ela é movimento”, conclui.

 

A Chef Ana Luiza Leite comenta que, hoje, no cenário contemporâneo da gastronomia, no Brasil e no mundo, os profissionais são constantemente inspirados por grandes chefs. “Isso nos ajuda a compreender nossos próprios caminhos e objetivos. Ao longo da minha trajetória, tive o privilégio de aprender com diversos tutores e pessoas profundamente inspiradoras.”

 

Ela ainda cita alguns nomes: “não posso deixar de destacar o papel fundamental da Mara Salles, que me introduziu de forma sensível ao universo da gastronomia brasileira. Foi através de seu olhar cuidadoso, de seu gestual e de seu respeito às origens que eu me encontrei verdadeiramente como cozinheira. Com ela, aprendi a reconhecer meu estilo, a valorizar ainda mais as raízes da nossa culinária e a compreender a cozinha como uma expressão cultural viva. Sou profundamente grata à Mara por ter sido essa figura essencial na minha formação.”

 

Chef14
A Chef Ana Luiza Leite – Foto: Divulgação

 

A Chef também fala sobre o restaurante Tordesilhas como fonte de inspiração e aprendizado. Um divisor de águas em seu processo gastronômico individual. “Foi lá que aprendi o verdadeiro significado de liderança, entendendo que cada pessoa tem seu papel e que há profissionais certos para cada função. No Tordesilhas, descobri o valor da diversidade cultural dentro de uma cozinha, o poder do respeito mútuo e a importância de reconhecer o espaço de cada um, tanto hierarquicamente quanto socialmente”, diz ela.

 

De acordo com a Chef Delhaye, quando o assunto é criatividade, ela conta muito com sua história de vida, com suas viagens, com as idas a restaurantes de chefs admiráveis e até mesmo com as redes sociais. “Eu sempre brinco com minha equipe que quando a gente pega um pouquinho de cada pessoa, um pouquinho de cada chef que eu faço evento, de cada restaurante que eu visito, de cada chef que eu sigo, de cada chef amigo meu, a gente transforma isso da nossa maneira. Isso se chama pesquisa.”

 

Chef15
O Chef Thiago Ribeiro – Foto: Divulgação

 

Ela ressalta ainda que se inspirar é diferente de copiar. “No mercado, é muito triste quando alguém pega absolutamente tudo de uma outra pessoa e, literalmente, imita. Isso se chama plágio. E há uma grande diferença entre pesquisa e plágio. Pesquisa é tudo o que a gente vive na vida, desde o nosso passado, nosso pensamento, nossas viagens, nossos amigos, nossos eventos, nossas experiências gastronômicas… Por vezes, no dia a dia, por exemplo, conhecemos um novo produto ou percebemos uma qualidade superior nele, e isso nos inspira.  Então, os locais para se inspirar são inúmeros”, detalha Delhaye.

 

O Chef Luis Nicolette afirma ver inspiração em tudo, seja online ou offline. “Sou apaixonado por visitar mercados municipais em cada cidade ou país que visito. É ali que a cultura pulsa: nas bancas, nas cores, nos cheiros e nos hábitos das pessoas. E confesso: adoro aquele restaurante ou boteco ‘pé sujo’, que está sempre cheio. É nesses lugares, onde a comida é simples e verdadeira, que eu entendo o que realmente toca as pessoas.”

 

Para ele, a inspiração nasce da observação e da vivência. “É disso que vem a vontade de transformar o comum em algo que evolui o mercado e emociona quem consome”, explica.

 

O Chef Thiago Ribeiro comenta que busca preservar a sua essência e considera-se um curioso por natureza. “Eu me reinvento ao viajar, ao conversar com produtores locais, quando busco entender a sazonalidade dos ingredientes e quando exploro novas tecnologias, que são coisas que fazem parte da minha rotina. Também me reinvento quando ensino, porque quem ensina também aprende. E isso mantém minha mente e minha cozinha em constante movimento. Ser chef é estar sempre em busca do novo, sem esquecer de onde viemos”, pontua ele, que é um defensor da ideia que a gastronomia do futuro nasce do encontro entre o conhecimento ancestral e a inovação moderna.

 

Na semana do Dia Internacional do Chef de Cozinha, a Tramontina Hospitality celebra quem transforma ingredientes em experiências e cada receita em reputação.  Em cinco episódios, os Chefs Tramontina César e Elzio preparam receitas e compartilham suas vivências na cozinha, mostrando como a solução completa de Tramontina Hospitality eleva a experiência profissional com precisão, tecnologia e confiança.

 

PROPÓSITO, FUTURO E VISÃO DE MUNDO

 

Como os Chefs mostram, na sociedade atual, o papel do chef de cozinha vai muito além de preparar pratos. Estamos falando de um profissional que se tornou um agente de transformação, atuando na influência de hábitos, na valorização de produtores locais e ainda promovendo reflexões sobre cultura, sustentabilidade e consumo consciente.

 

Na opinião do Chef Luis Nicolette, o chef de cozinha é um tradutor da sociedade. “Ele expressa histórias, emoções e valores por meio da comida. Mas também tem um papel fundamental como agente de transformação. É visível que hoje o chef é protagonista em pautas importantes como saúde, sustentabilidade e bem-estar. Cada prato conta uma história, e cada escolha dentro da cozinha pode gerar um impacto social, cultural e ambiental”, conclui.

 

Chef18
A Chef Manu Buffara – Foto: Divulgação

 

A Chef Delhaye destaca que a trajetória na cozinha é sofrida, é longa, mas é o lugar onde você vai ser feliz, “porque o prazer está no caminho, no método e na conquista, nunca na linha de chegada. E acho que é isso o que o chef tem que representar, é isso que deve mostrar para a nova geração. Temos que apresentar os desafios e as dificuldades, mas também a ética e o orgulho do trabalho. Cozinha é foco, amor, obsessão… E acho que eu e minha família representamos isso”, diz ela.

 

Para a Chef Ana Luiza Leite, o legado futuro que se deseja deixar por meio da cozinha é algo que molda as ações de um Chef. Ela comenta que seu desejo é contribuir com a imagem de uma cozinha construída com respeito, sensibilidade e propósito. “Quero ser lembrada pelo respeito ao ingrediente, pela valorização de quem o produz e pela consciência de que nada deve ser desperdiçado. Acredito que cada prato carrega emoção, e que a criatividade só tem força verdadeira quando caminha lado a lado com as raízes”, explica a Chef.

 

O Chef Luis Farias também já sabe qual legado pretende deixar para as futuras gerações: “desejo mostrar como nossa profissão é digna e apaixonante e como, ao mesmo tempo, requer muita dedicação e responsabilidade. Ser profissional de gastronomia é transformar o alimento em processos, medidas, sabores e arte.”

 

Chef21
Cesar Brandelli, Chef de Cozinha da Tramontina Hospitality – Foto: Divulgação

 

Ao olhar para o aspecto mais social da profissão, a Chef Manu Buffara explica que temas como sustentabilidade, desperdício zero e inclusão são conceitos que ela aplica não apenas em seu restaurante, mas em sua vida. “O que cozinho é consequência do que acredito. No Manu, usamos o que nasce perto, respeitamos o tempo das estações, valorizamos quem planta. Trabalhamos com pequenos produtores, reduzimos o desperdício e pensamos cada ingrediente até o fim, das cascas às raízes”, detalha.

 

E ela vai além. Segundo Buffara, a sustentabilidade que a interessa é a humana, “o que significa garantir que a equipe tenha tempo para viver, que as pessoas ao redor do restaurante tenham acesso a comida de verdade, que as crianças entendam de onde vem o que comem. O Instituto que criamos nasceu desse desejo, transformar a cidade através da alimentação”, diz a Chef, se referindo ao Instituto Manu Buffara, uma associação social criada por ela para desenvolver ações voltadas à alimentação saudável, educação e inclusão social em Curitiba.

 

Para Buffara, de forma geral, ser chef é cuidar. “Da terra, das pessoas, da memória. É entender que cada prato pode ser um gesto de mudança.

 

O Chef Thiago Ribeiro também enxerga a extrema importância de incorporar questões sociais e ambientais no trabalho com a cozinha. “Esses temas são o alicerce do meu trabalho. Acredito em uma gastronomia que respeita o ciclo natural dos alimentos – do solo à mesa -, priorizando ingredientes locais, sazonais e o aproveitamento total: da casca à semente.”

 

Chef22
Elzio Callefi, Chef de Cozinha da Tramontina – Foto: Divulgação

 

Ele comenta ainda que seu objetivo é defender uma cozinha inclusiva e acessível, onde todos possam comer bem, independentemente de restrições alimentares ou estilo de vida. “Por isso desenvolvo receitas sem glúten, sem lactose, low carb e plant-based, mostrando que é possível unir saúde, sabor e inclusão”, explica Ribeiro, reforçando que, em sua opinião, sustentabilidade não é uma tendência, e sim uma responsabilidade. “Temos que entender que o futuro da alimentação depende das escolhas que fazemos hoje, e muitas das respostas para o futuro estão no passado”, conclui.

 

Ao olhar para o futuro da gastronomia, a Chef Danielle Johnnie relembra que o setor já passou por várias fases, e que, hoje, está abandonando aos poucos o excesso e o grande foco na estética. “Então, quando a gente fala de cozinha de experiência, algo que sempre vai existir, temos que lembrar que durante muito tempo ela foi associada a grandes arrojamentos estéticos, a insumos exóticos. Eu acho que a gente, aos poucos, está voltando para a essência de uma cozinha bem feita”, aposta ela.

 

Como exemplo desse retorno, Johnnie cita a retomada do cardápio impresso. “Estamos vivendo as consequências de uma overdose de informação, sobretudo online, então todos nós, mesmo que em um movimento lento, estamos sentindo as dores dos excessos que vieram e agora buscamos achar um equilíbrio. Então, para mim, a grande tendência do futuro é o retorno para a forma como a gente consumia as coisas, com mais conexão, essência e conforto. O arrojamento ainda existe, mas tem um peso menor hoje”, esclarece Johnnie.

 

E para quem está começando a se aventurar numa jornada gastronômica, o Chef Yuri Machado deixa uma dica: “A cozinha não é palco de ego, é altar de paciência. Observe, prove, queime o dedo, lave a louça, escute quem veio antes. E, acima de tudo, cozinhe com curiosidade. Ela é o tempero que nunca pode faltar.”

 

Para o Chef Cesar Brandelli, da Tramontina Hospitality, com o tempo, o papel do chef evoluiu de executor e líder, a gastronomia caminha para uma fase mais humana, sustentável e consciente. “A valorização da origem dos ingredientes, o desperdício zero e o impacto social positivo serão protagonistas. A tecnologia seguirá como aliada, mas o futuro pertence a uma cozinha que reconecta pessoas, territórios e cultura. O luxo de amanhã será a autenticidade e o respeito ao alimento”, prevê. Humildade para aprender todos os dias é o conselho destacado pelo Chef Brandelli. “A cozinha ensina com erros, cortes e acertos. Busque uma base técnica sólida, respeite o tempo de amadurecimento e aprenda com cada serviço, não apenas com os livros. E, acima de tudo, cozinhe com propósito, não para impressionar, mas para emocionar.”

 

O Chef Elzio Callefi, também da Tramontina, aposta que o olhar da gastronomia nos próximos anos estará voltado para a hospitalidade, com foco no atendimento e na simplicidade. “Tudo voltado para o simples, mas com um impacto de fidelização enorme com o cliente”, avalia.

 

O Chef assinala que o conselho que deixaria para quem está começando hoje é a importância de aprender tudo relacionado à cozinha. “Qualquer oportunidade de aprendizado é válida. Açougue, peixaria, bar, padaria, mercado, confeitaria, restaurante, hotel, resort, cruzeiro… faça muitos estágios, lave muito prato, trabalhe com grandes chefs, entenda como as coisas funcionam, seja voluntário. Nem tudo no começo é por dinheiro. Faça uma troca com quem te der oportunidade, trabalhe em troca de aprendizado e não pare no primeiro, nem no segundo e nem no terceiro lugar, continue aprendendo sempre”, indica. Além disso, Callefi revela que, para ele, o profissional não pode deixar de ser humilde, educado, respeitador e organizado. “Saber falar com as pessoas é essencial. Também mantenha seu uniforme impecável e suas facas sempre afiadas. O resultado chega.”

 

Anna Katia Cavalcanti1
Anna Katia Cavalcanti
+ posts

Jornalista formada em Comunicação Digital, com habilitação em Jornalismo, e pós-graduada em Marketing Digital e Mídias Sociais. Atua como repórter, assessora de imprensa e social media. Tem passagens pelas editorias de Cultura, Cidades e Online do jornal Diario de Pernambuco e acumula participações em projetos editoriais e institucionais.

Compartilhar:

Facebook
Twitter
LinkedIn
Fique Atualizado!

Assine nossa newsletter

Visão geral de privacidade
rfs logo

Este site utiliza cookies para garantir uma experiência melhor e personalizada aos nossos usuários.

Os cookies são pequenos arquivos de texto armazenados no seu dispositivo que nos ajudam a entender como você utiliza nosso site. Eles desempenham um papel importante em fornecer uma navegação mais eficiente e adaptada às suas preferências.

Se você concorda com o uso de cookies, clique em "Aceitar". Caso contrário, você pode ajustar as configurações de cookies a qualquer momento em seu navegador.

Strictly Necessary Cookies

Strictly Necessary Cookie should be enabled at all times so that we can save your preferences for cookie settings.