A chef chileno-brasileira Cristiane Gutierrez, ou Cris Gutierrez como é popularmente conhecida, é uma das maiores referências mundiais quando o assunto é fermentação natural sem glúten e confeitaria saudável, sendo pioneira em estudos na área, que descobriu a partir de uma necessidade pessoal. Com formação nacional e internacional em Gastronomia, a chef desenvolveu – e desenvolve – um importante trabalho autoral. Hoje, ela, que é uma defensora incansável do estudo como forma de atingir a excelência profissional, ministra aulas e cursos presenciais e online para formar mais e mais especialistas no assunto.
Mas nem sempre foi assim! A primeira formação de Cris é em jornalismo e foi como repórter e assessora de comunicação que ela atuou e fez carreira por dez anos. O desgaste da atuação como jornalista e a felicidade que se revelava na cozinha definiram a mudança de rumo: ela largou tudo e reiniciou os estudos para transformar o que até então era um hobby em uma profissão. Decisão que mudou também os caminhos da fermentação natural sem glúten no mundo, já que isso gerou a criação do Método Chef Cris Gutierrez.
Quer saber mais sobre a história dessa profissional que acumula alunos e admiradores? Acompanhe!
Quem é Cris
Tudo que limita seu pensamento lhe afasta do seu potencial. É nisso que Cris Gutierrez, atualmente com 44 anos, acredita e leva para a vida. Apesar de extremamente focada em seu crescimento e qualificação como profissional, a chef não dispensa bons momentos de lazer. Segundo ela, a ideia é aproveitar suas horas vagas da melhor forma possível, fazendo o que gosta, como estar na companhia dos três filhos – duas meninas e um menino – e dos seus três gatos, Mingau, Zeus e Cora. Ela, que já morou e esteve em diversos locais do Brasil e do mundo, ainda adora descobrir novos lugares. Então, passeios e viagens ocupam um lugar especial em sua vida.

Cuidar das plantas e flores que cultiva na horta desenvolvida em sua casa-escola é outro passatempo da chef. Mas os estudos não ficam de lado nem nos momentos de lazer. Nas horas livres, ela também costuma se dedicar a busca pelo conhecimento. “Amo estar na cozinha, fazendo testes, criando. Nessa área sempre é preciso reciclar o conhecimento”, diz.
Relação com a gastronomia
Cris começou a se interessa pelo mundo da gastronomia há mais de 20 anos, inicialmente apenas como um passatempo, descoberto de forma orgânica. Primeiro, formou-se em Jornalismo, trabalhando como repórter e assessora de comunicação por dez anos, o que a fez estar à frente de vários cargos de chefia. Desde aí seu tempo livre já era dedicado à culinária. “Percebi o quanto gostava de ir às feiras, de comprar e escolher os ingredientes, de descobrir os insumos em suas origens saudáveis… Era um grande hobby. Todo o processo que envolve a gastronomia desperta paixão em mim”, explica.

Sua carreira na comunicação também lhe permitiu morar em diversas cidades brasileiras, o que contribuiu de forma direta para o seu deslumbramento com a riqueza gastronômica do Brasil. “Tive a oportunidade de me beneficiar de várias culturas diferentes, já que nosso país é quase como se fosse muitos países dentro de um só. Essa experiência me deu uma visão muito ampla da culinária. Já morei no Norte, no Centro-Oeste, no Nordeste, no Sudeste… com isso pude descobrir as diferenças da cozinha de cada região, o que começa com os ingredientes e vai até o processo de perceber as pessoas e as formas como elas se relacionam com os alimentos. O Chile e a América Latina também têm uma influência muito grande na minha gastronomia. Meus gostos e minha relação com a culinária é uma mistura de tudo isso”, revela.
Quando a relação com o jornalismo se desgastou de forma definitiva, o amor pela gastronomia floresceu. “Eu chefiava equipes de comunicação, mas todo meu tempo livre já era dedicado a cozinha. Percebi que era feliz ali, naquele ambiente. Foi o empurrão que faltava para largar o jornalismo completamente”, relembra. Após a decisão, Cris voltou a estudar, dessa vez, gastronomia. “Eu acredito que para você ser muito bom em algo, você precisa deter conhecimento, ter técnica. É preciso estudar, não é possível viver só de amadorismo, que é muito bonito, mas não me levaria para onde eu queria ir”.
Formação
Cris iniciou sua vida na gastronomia buscando os cursos de base, principalmente os de valores mais acessíveis. Atualmente, é pós-graduada em gastronomia, mestre padeira e confeiteira por formação, além de ser especialista em fermentação natural sem glúten e em confeitaria saudável, com cursos nacionais e internacionais. “Ao todo, possuo mais de 37 certificados de cursos. Eu realmente estudei para caramba, sou meio viciada nisso. Quando quero algo, ativo o hiperfoco e me dedico bastante para atingir o objetivo”, explica.

Ainda assim, o pão nem sempre foi uma paixão. A panificação entrou na vida de Cris por acaso, não foi algo muito planejado. Em sua busca por conhecimento, ela participou de muitos cursos promovidos pelo Senai e Senac, entidades que fazem parte do Sistema S. Um deles era justamente uma formação de pizzaiola. “Foi fazendo um curso rapidinho de pizza que comecei a me interessar pelos pães. Assim que percebi que era aquilo, larguei a cozinha quente para me dedicar a essa área”, conta. Na ocasião da descoberta da panificação, Cris promovia jantares particulares em sua casa para grupos reduzidos.
“Comecei a investir nos pães com panificação tradicional. Minha primeira linha de produtos era formada por itens 100% integrais, só que fofinhos. Passei bastante tempo desenvolvendo essas criações porque não era um processo fácil”, diz ela. A paixão recém-descoberta foi uma surpresa até para Cris, que explica que desde a pré-adolescência se sentia muito mais ligada ao universo das sobremesas. “Lembro que lia revistas e tentava reproduzir o que encontrava ali. Adorava fazer bolos, pães não”, revela.

Cris foi se especializando em panificação, porém não deixou de lado os estudos sobre a cozinha quente e nem parou de buscar outras formações. “Isso me ajuda no entendimento geral da gastronomia. Para profissionais da área, é essencial ter essa compreensão global para que seja possível criar e desenvolver receitas, já que em vários momentos a cozinha quente se une com a panificação, que também se une com a confeitaria”, dá a dica.
Já os produtos sem glúten surgiram na vida de Cris a partir de uma necessidade pessoal. “Tenho intolerância ao glúten, especialmente ao trigo, e me sentia muito mal com os seus efeitos no meu organismo. Não conseguia mais trabalhar ou vender, já que comecei no mercado vendendo os pães que criava, até então produtos tradicionais, com glúten, 100% integrais. A partir daí comecei a desenvolver receitas sem glúten, isso há mais de dez anos”.
Resultados que fizeram história
“Na fermentação sem glúten, até então tínhamos resultados mais comuns. As pessoas comiam um pão sem glúten e diziam: esse pão é sem glúten. Hoje não. A partir dos meus estudos, de tudo o que criei com meu trabalho, é possível sim comer um pão sem glúten e dizer: nossa, que pão maravilhoso é esse? Muita gente não consegue perceber a diferença e eu acho que isso é o mais importante no meu trabalho, porque esse avanço abriu caminhos para outras pessoas, pois, a partir do momento que alguém faz, outros percebem que aquilo é possível, que é real, e começam a fazer também”.

A grande diferença de resultados, segundo Cris, está no fato de que ela conseguiu compreender que a técnica está acima de qualquer receita, de qualquer farinha. “Os processos técnicos podem nos levar aos resultados que hoje eu ensino. Quando comecei nesse segmento, nossa referência era muito baixa. Não existia nada de fermentação completamente selvagem com os resultados que eu conseguia apresentar. Foi a partir dos meus estudos contínuos na própria panificação tradicional que consegui desenvolver um trabalho pioneiro na área, falando em resultados. Claro que já existiam pessoas que faziam a fermentação natural, até sem usar o glúten, mas não com os resultados que obtive”, explica.
Escola Chef Cris Gutierrez
De acordo com Cris, a percepção que o trabalho desenvolvido por ela com os produtos sem glúten estava muito avançado quando comparado ao que já estava sendo vendido e produzido no mundo, veio quando ela começou a viajar para fazer mais pesquisas. A partir disso, a chef teve a ideia de compartilhar os resultados obtidos com outros amantes da fermentação sem glúten. “Sempre quis ter um local fixo, mas era um sonho ainda distante da realidade. Então iniciei dando aulas pelo Brasil. Viajava, alugava escolas e ministrava cursos. Viajava com duas malas lotadas de utensílios e insumos para dar aulas nas cidades visitadas, até que chegou a pandemia”, explica.
A pandemia da Covid-19 foi o start necessário para um investimento mais pesado no mundo online. Daí os cursos presenciais, que até então eram itinerantes, deram lugar às aulas virtuais, transmitidas diretamente de Fortaleza, onde Cris morava e mantinha uma cozinha simples, mas bem equipada, para servir de base para os ensinamentos. “Com o online houve uma grande propagação dos trabalhos que são feitos na panificação sem glúten. Isso aconteceu comigo e com outras pessoas. Com a ampliação desse alcance, hoje minhas técnicas podem ser aprendidas e desenvolvidas por muitas outras pessoas”.

Com isso, segundo a chef, a ideia de ter um espaço para sediar suas aulas e cursos foi se tornando cada vez mais real. Após se mudar definitivamente para São Paulo e montar uma cozinha ainda mais moderna e equipada para as aulas online, Cris decidiu investir também na criação de um local para abrigar uma escola voltada exclusivamente para a panificação e confeitaria de fermentação natural sem glúten. “Não existe outro tipo de aula dentro da escola”.
Hoje, a Escola Chef Cris Gutierrez funciona, há aproximadamente um ano, no próspero bairro do Brooklin, em São Paulo, abrigando aulas presenciais e gravação de material para as atividades virtuais. “Não é um trabalho fácil, nem simples. Eu batalhei muito para conseguir pensar em um dia ter uma escola. Por muitas vezes achei que isso não seria possível”, revela.
Cris acredita que hoje o seu conhecimento está bem propagado. “Mas continuo buscando desenvolver cada vez mais o meu trabalho, que agora pode ser reproduzido por diversas outras pessoas que, como eu, pretendem chegar a excelentes resultados na fermentação sem glúten”.
Projetos para o futuro
Como se trata de um projeto ainda recente, com menos de um ano de inaugurado, a Escola Chef Cris Gutierrez ainda domina todos os esforços e concentração da profissional. A ideia é oferecer algo cada vez melhor e mais completo para os alunos. Porém, a própria Cris se considera uma pessoa extremamente inquieta, com forte tendência a cair no tédio, por isso, inovações estão sempre presentes na sua vida. “Eu não consigo fazer sempre a mesma coisa. Por isso, minhas aulas mudam, elas evoluem para acompanhar o mercado, os alunos e a mim”, diz.

Para o futuro, Cris vislumbra novos projetos. “Eu ainda estou curtindo muito a escola, mas tenho vontade de vender, ter uma padaria. Quero voltar a produzir produtos. Porém tenho consciência que é preciso tempo e calma para que cada coisa saia sempre muito bem feita, porque, acima de tudo, prestar um serviço de excelência sempre foi meu principal objetivo e tenho pavor de fazer diferente. Sem falar que no Brasil não existem muitos incentivos para o pequeno empreendedor, o que torna a tarefa difícil. Então há planos, porém não para agora. A escola tem toda minha atenção”, conta.
Mercado da panificação
“Eu enxergo esse mercado como algo absurdamente promissor. Já dei várias palestras em universidade e sempre que tenho oportunidade falo para os alunos que o mercado é deles. Ainda acho que o setor é pouco profissionalizado e por isso há muito espaço para os profissionais de verdade. Acredito que ainda há muito amadorismo no segmento, que é muito bonito, mas na prática, não faz o mercado evoluir como deve”, conta.
A chef revela ficar orgulhosa ao ver o grande fluxo de alunos que têm nas aulas online e presenciais. “Vejo pessoas que estão ali buscando capacitação para oferecer um produto e um serviço melhor para o mercado. Também habilito profissionais que querem se tornar multiplicadores, ensinando outras pessoas dentro do mercado. E eu acredito muito nisso. Temos a nossa frente um setor extremamente promissor, mas que precisa de mais e mais pessoas capacitadas, com conhecimento de verdade e com resultados. Não é apenas oferecer qualquer pão”.
Dica para quem está começando
Na opinião de Cris Gutierrez, não há outra forma para prosperar e se firmar no mercado sem ser através dos estudos e da qualificação. “É preciso estudar, ralar, parar de querer fazer as coisas por atalho. Para quem quer fazer um trabalho excelente, o jeito é pegar o caminho certo, fazer as coisas direito. Acredito muito que se uma pessoa tem foco e corre atrás dos seus objetivos, se consegue determinar o que ela precisa fazer para chegar aonde ela quer chegar, ela chega. Não vou negar que para isso é preciso abrir mão de muitas coisas. O caminho é difícil, eu nem sempre tive as condições financeiras que tenho agora, mas investir na profissionalização é o que faz a diferença e gera um crescimento sólido”, aconselha.
Para chef, a excelência profissional não serve apenas para quem a detém. “Vejo isso como um propósito de vida, uma forma de impactar a vida de outras pessoas. Por isso, acredito que o conhecimento é o principal alicerce e a maior estrutura de um negócio, projeto ou trabalho. Na minha visão, vejo que a gastronomia tem um papel muito importante no mundo; e as pessoas que entram na gastronomia têm que estar dispostas a ralar e fazer jus à responsabilidade que elas têm”, completa.

Anna Katia Cavalcanti
Jornalista formada em Comunicação Digital, com habilitação em Jornalismo, e pós-graduada em Marketing Digital e Mídias Sociais. Atua como repórter, assessora de imprensa e social media. Tem passagens pelas editorias de Cultura, Cidades e Online do jornal Diario de Pernambuco e acumula participações em projetos editoriais e institucionais.
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