O conceito de inteligência artificial aplicada ao mercado tem estado em evidência nos últimos anos devido à crescente necessidade de criação de modelos que aproximem as soluções tecnológicas do público de maneira acolhedora. Nos serviços de alimentação a chegada da IA e tecnologias associadas não se deu apenas nos setores de marketing e desenvolvimento de produtos: o aumento significativo de automatização de processos demandou investimento em bots e programas de autoatendimento, as dark kitchens trouxeram em seu conceito a integração destacada entre máquinas e o metaverso, que hoje representa uma fatia interessante do mercado de investimentos mundiais, não deixou de fora os food services.
O sucesso das trends surgidas nas redes sociais nas últimas semanas, com as pessoas experimentando quais seriam suas “versões” em diferentes contextos, mostra o quanto entender a inteligência artificial e experimentar o universo virtual é atraente ao público. E a quantidade expressiva de reclamações dos usuários dos aplicativos quanto às não-semelhanças entre suas imagens reais e os avatares criados pela inteligência artificial demonstram que queremos interagir com as máquinas, queremos atuar virtualmente, mas tudo isso bem parecidinho com a experiência que temos ao vivo e à cores. Queremos o retrato feito pela máquina, que nos entrega em minutos dezenas de opções diferentes para escolher, com a sensibilidade do pintor que presta atenção aos nossos detalhes únicos, e por vezes passa dias trabalhando em uma única imagem. O desejo pela virtualidade e o medo de perder a identidade são os dois lados da moeda, encontrar o equilíbrio é o desafio.
Inteligência artificial, machine learning e tecnologias associadas são, certamente, facilitadores para o setor de alimentação, tanto na produção quanto nas relações entre operadores e público. Do pequeno restaurante autoral à rede de centenas de lojas, da cozinha que entrega poucas dezenas de pratos por noite àquela que é responsável por milhares de refeições diárias, em todos os pontos do food service já se pode ver pequenos indícios – e por vezes já nem tão pequenos – da IA redesenhando como a alimentação fora do lar é oferecida, produzida e entregue. Mas, apesar de desejarem a excelência nos processos, humanos se fazem humanos em sua relação com os outros e com o mundo, e por mais eficaz que se faça o atendimento completamente automatizado, ainda se busca a unicidade do diálogo, o bom dia ou boa noite que traz um pouco das emoções, a pergunta sobre como foi nosso dia. Quando pensamos food services precisamos ter em conta que a alimentação representa também integração humana e cultura. Fechar essa conta entre virtual e real, entre a inteligência previsível e a inteligência do improviso, é o novo graal.
E que tal sair para jantar no metaverso? Pode parecer ainda muto futurista para maioria, mas já existem restaurantes completamente virtuais, que oferecem esta experiência para os mais interessados numa vida no universo paralelo. Atenção, spoiler: os relatórios Food Industry 2022/2026 apontam que, dentro de não muito tempo, esta será uma preocupação real de todo o setor, porque tende a movimentar cifras impossíveis de serem ignoradas.
Num cenário onde blockchain e realidade virtual coexistem, a comida virtual vai representar lucro de verdade. Para quem ainda não está familiarizado, o termo NFT (Non-Fungible Tokens) diz respeito a tokens criptografados que representam algo único e têm valor econômico. Uma amostra interessante, o PizzaDAO, atuante no metaverso, numa ação específica, teve receita de quase dois milhões de dólares em dois meses com 300 pizzas raras, em formato NFT, feitas artesanalmente por ‘chefs algorítmicos’ com base em seleção aleatória de coberturas criadas por artistas especializados. Estamos falando da ciberalimentação e, ainda que essas pizzas evidentemente não fossem comestíveis, a receita arrecadada com sua venda é incontestável.
Entretanto, mesmo fascinante e potencialmente lucrativa, a ciberalimentação ainda engatinha. E na vida real, com ou sem NFTs, a comida não pode ser virtual. Tem que ser real, saborosa e atender a demanda do consumidor 5.0, conectado e exigente, que domina os caminhos virtuais para pedir sua comida, recebê-la, pagar por ela e, eventualmente, reclamar em tempo real dos serviços. Seja para alguém de carne e osso ou para uma máquina, com impacto. Esse poder do novo consumidor de interagir com o mundo e apresentar suas impressões em segundos o torna um personagem importante na construção das marcas, potencializando o destaque que já era garantido como cliente. Todo cliente tem a possibilidade de ser também crítico gastronômico, todo operador tem a possibilidade de ser crítico de tecnologia. Ainda assim, inteligência artificial e tecnologia em geral podem ser grandes aliados para tornar as experiências de alimentação cada dia mais autênticas e operadores mais conectados com seu público.
Alessandra Gaidargi é jornalista com MBC em Comunicação Empresarial e Institucional. Mestre e Doutora em Educação e Mídias. Pós doutora em Culturas de Paz. Autora de livros e artigos nas áreas de educação, comunicação e maternidade, tendo como uma das áreas de pesquisa a relação entre alimentação e culturas. Tem atuado há 14 anos no segmento de food service, gastronomia, nutrição e mercado de luxo, como editora em grandes veículos do segmento, como assessora de comunicação no CRN-3 e como consultora. É docente universitária nas cadeiras de marketing em gastronomia, comunicação em serviços de alimentação e nutrição, fotografia e processos dialógicos. Atua também em mentorias individuais e corporativas.


