Comida de criança: Para alimentar os olhos, a barriga e o coração

Por Alessandra Gaidargi, Articulista convidada da Rede Food Service

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Crianças são pessoas, só que pequenas. E essas pessoas pequenas vem ganhando cada vez mais atenção de quem produz alimentação fora do lar, já que a vida além das paredes de casa também tem começado mais cedo. E se tem crianças na rua, seja na escola, acompanhando os pais no trabalho ou nos momentos de lazer, o setor de food service tem um público para atender. E esse público pode ser pequeno em estatura, mas tem um grande parâmetro de exigência.

 

Como todas as pessoas, crianças precisam dos alimentos para nutrir o corpo e a alma. A diferença é que, no caso das crianças, o pacote completo da alimentação saudável, comida que começa a nutrir pelos olhos, passa pela barriga e alcança o coração, não é uma proposta diferenciada como para os adultos. Quando falamos do público até 10 anos de idade não tem essa história de restaurante pra todo dia e restaurante pra ocasiões especiais. Comer, para eles, é sempre especial, assim como pra nós – a diferença é que eles não abrem mão.

 

Se para as crianças ou a alimentação se encaixa na experiência divertida e nutritiva ou ela nem acontece, e não acontece mesmo porque eles não comem e ponto, o food service que se projeta para esse público segue essa linha: produtos que servem olhos, barrigas e corações.

 

Os olhos se alimentam pelo visual. E isso vai muito além da embalagem, mas já começa nela. Embalagem física para os produtos que vão para casa, embalagem enquanto apresentação para as refeições servidas no prato, ter esse lugar atrativo é o primeiro objetivo a ser alcançado quando falamos de comida para crianças. As cores são muito importantes, há cores específicas para atrair esse pequeno grande púbico, a associação a personagens pode ser também de grande valia, mas o que as pesquisas têm mostrado é que o marketing mais importante quando falamos de comida para crianças é o aspecto mais natural possível para a comida. A despeito do que o senso comum muitas vezes traz, a comida de criança mais atrativa não é aquela com cores fantásticas e texturas inesperadas, ainda que eles gostem eventualmente de provar o inusitado quando estão com fome eles procuram comida com cara e jeito de comida mesmo.

 

Essa resistência das crianças ao que é artificial é reflexo do nosso sistema humano de triagem de alimentos. Desde sempre somos responsáveis por nos alimentar a partir de nossos padrões de sobrevivência, e é muito mais fácil quando não conhecemos um alimento acabar envenenado com algo estranho e azul do que com uma fruta amarelinha de cheiro adocicado.

 

E como se explica a paixão das crianças por doces ultra coloridos e com sabores disruptivos? Do hábito. Dificilmente as crianças provam esses alimentos sem o incentivo dos adultos ou da comunidade infantil do entorno, sejam primos, colegas de escola ou amigos do condomínio. Então, ainda que não seja o padrão natural do que se busca, esses alimentos incorporam a dieta infantil a partir do hábito. Com os adultos acontece do mesmo jeito, quantas vezes experimentamos alimentos ou bebidas que não são agradáveis ao paladar inicialmente e os incorporamos aos hábitos por questões associativas e sociais. Cerveja, por exemplo, é a bebida mais consumida no país, mas todos conhecem alguém que diz que detestou o gosto e foi se acostumando.

 

Doces inusitados e comidas com propostas diferentes do tradicional são bem-vindas pelas crianças, assim como novidades são bem-vindas pelos seres humanos sempre. Porém, quando ofertamos alimentação fora do lar para crianças, ela não pode ser sempre ultra colorida e disruptiva, porque para a hora da fome eles buscam o lugar comum, de preferência o mais parecido possível com o que se come em casa. E crianças pequenas quase sempre comem de maneira bem natural em casa. É a comida colorida pelas cores da natureza.

 

Uma vez contemplada a visão, chega a hora de olhar para a saudabilidade dessa comida. Atender à barriga. E esse talvez seja o grande desafio do food service para crianças, oferecer refeições e produtos saudáveis que atendam o olhar atento e também a necessidade nutricional de clientes em fase de crescimento. É importante desconstruir o mito de que tudo que é saudável é chato, porque não é. Ou pelo menos não precisa ser. Comida saudável e balanceada é importante para o desenvolvimento em todas as fases da vida, mas quando nos dirigimos ao publico infantil é fundamental que essa seja a regra. Inclusive porque, é sempre importante lembrar, esse público faz suas escolhas e é cada vez mais autônomo no escolher, mas o leque dentro do qual eles escolhem é apontado por mães e pais, que não abrem mão da saudabilidade. Portanto, quando falamos em food service para crianças falamos de produtos que atendem a demanda dos pequenos, claro, mas contanto que passem antes pelo crivo dos grandes, que financiam essa alimentação fora do lar, e eles estão bem interessados na composição nutricional de tudo que entra na vida de suas crianças.

 

Bem, contemplados os olhos e barriguinhas, chegamos ao coração. À ludicidade. Ao brincar. Aos aspectos culturais que a comida de criança precisa alcançar. Porque se não atender ao coração, se não alimentar quem somos, a comida só fez metade do trabalho.

 

O mais importante é compreender que as três coisas não se desvinculam. O colorido que atende aos olhos, em cores naturais e saudáveis que atende à barriga, também pode ser lúdico e atender o coração. Para as crianças a alimentação não se desconecta da diversão, o ato de comer é divertido e uma oportunidade de experimentar o mundo. Mas essa experimentação precisa ser pensada, estudada mesmo por quem a oferece, para que não seja barrada pela resistência ao diferente que é muito característica dos pequenos. A mesmo tempo que buscam oportunidades de provar o mundo, eles muitas vezes rejeitam tudo aquilo que não oferece aparente segurança, que diverge muito do alimento apresentado pela família.

 

Nesse equilíbrio entre apresentar o novo e divertido dentro de um contexto familiar e seguro com visual interessante reside a oferta de sucesso de food service para crianças. A ideia de que tudo que é feito para crianças quando se trata de alimentação fora do lar só precisa ser menor ou vinculado a temas infantis precisa ser revista quando o objetivo é conquistar esse publico. A oferta dos kits kids formados apenas por guarnições e das refeições junior que consistem em pratos com metade do tamanho é antiga e permanecerá ativa enquanto houver procura, mas é chegado um novo momento para a alimentação das crianças, um food service que é pensado e estruturado para eles ainda que as crianças sejam clientes indiretos. E que é visionário, porque atua diretamente na criação de hábitos alimentares dos adultos de amanhã, que serão clientes diretos desse segmento.

 

Comida de criança: Para alimentar os olhos, a barriga e o coraçãoAlessandra Gaidargi é jornalista com MBC em Comunicação Empresarial e Institucional. Mestre e Doutora em Educação e Mídias. Pós doutora em Culturas de Paz. Autora de livros e artigos nas áreas de educação, comunicação e maternidade, tendo como uma das áreas de pesquisa a relação entre alimentação e culturas. Tem atuado há 14 anos no segmento de food service, gastronomia, nutrição e mercado de luxo, como editora em grandes veículos do segmento, como assessora de comunicação no CRN-3 e como consultora. É docente universitária nas cadeiras de marketing em gastronomia, comunicação em serviços de alimentação e nutrição, fotografia e processos dialógicos. Atua também em mentorias individuais e corporativas.
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