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Somos parte do problema

Por Marcelo Queiroz, presidente da Tetra Pak Brasil, para a Rede Food Service

Foto: Getty Images

 

Nos últimos anos, as discussões relacionadas ao cuidado com o meio ambiente, com a sociedade e com a governança corporativa avançaram rapidamente, dando origem a sigla ESG, acrônimo para os três termos em inglês. Sobretudo para questões ambientais, os olhos de consumidores e investidores estão cada vez mais atentos às ações de governos e organizações, não cabendo somente projetos de mitigação de danos, mas sendo necessário o investimento em alternativas alinhadas ao conceito de economia sustentável e de baixo carbono.

 

No setor de embalagens para alimentos e bebidas, por muitos anos houve uma ênfase na importância da reciclagem e na reintrodução do material descartado em um novo ciclo de vida. Ainda que a reciclagem continue sendo um pilar importante na estratégia de diferentes empresas, incluindo a que eu represento, e que nos últimos anos tenhamos avançado em termos de infraestrutura e tecnologia, é ponto comum que mais precisa ser feito. Sozinha, a reciclagem não dará conta do desafio à frente.

 

Relatório da ONU divulgado em 2019 aponta que até 2060 a demanda global por matérias-primas irá praticamente dobrar, o que exigirá de governos e organizações um olhar atento e de longo prazo que não se limite unicamente à reciclagem de resíduos. Neste contexto, a renovabilidade será um fator crucial direcionando os esforços da indústria e o padrão de compra de uma parcela cada vez maior de consumidores.

 

A última edição do estudo Environment Research, conduzido pela Tetra Pak em quinze países, incluindo o Brasil, indica que mais da metade dos consumidores (53%) têm propensão a considerar uma marca cuja embalagem seja considerada ambientalmente responsável. Quando questionados sobre inovações que gostariam de ver nas embalagens, surgem como principais respostas o uso de matérias-primas de origem renovável (36%), novidades que contribuam para o enfrentamento de questões climáticas (36%) e o uso de certificações que atestem a produção responsável (29%).

 

Em busca de alternativas que respondam às novas demandas nas gôndolas, um caminho que a indústria de alimentos e bebidas tem percorrido é a pesquisa e desenvolvimento de matérias-primas alternativas que possam ser incorporadas às embalagens. Em nosso negócio global, estabelecemos o compromisso de investir € 100 milhões anualmente pelos próximos cinco a dez anos (algo em torno de R$ 600 milhões no câmbio atual) com foco no desenvolvimento de soluções sustentáveis – somando esforços futuros com outros conduzidos nas últimas décadas.

 

Atualmente, muitas das opções de embalagens disponíveis no mercado já contam, em parte, com materiais de origem renovável, mas isso responde somente a parte do desafio que enfrentamos. A questão central está em desenvolver uma embalagem que seja inteiramente renovável ou que trabalhe com um mix de matérias-primas vegetais e recicladas – naturalmente, ainda podendo ser direcionada para reciclagem pós-consumo.

 

Na Europa, já existem projetos que se propõem a incorporar polímeros reciclados a embalagens cartonadas. Ainda que sejam testes iniciais e com capacidade limitada de produção, a ideia é avançar em esforços do tipo até que seja possível alcançar capacidade global (em termos de produção e infraestrutura) para a substituição de plásticos de origem fóssil por opções recicladas. O caminho não é curto e muito menos simples, mas é certamente uma alternativa interessante e que se soma a outras já estabelecidas – como o uso de plástico produzido a partir da cana-de-açúcar em embalagens que atendem diferentes categorias de alimentos e bebidas.

 

Contudo, ao abordar o tema sustentabilidade é preciso ter em mente uma visão macro que se proponha a ir além da embalagem ou do produto em si, mas que também considere o seu impacto ambiental ao longo de todo o ciclo de vida. Isso significa dizer que absolutamente tudo importa, desde a fabricação, distribuição, consumo e descarte até a reintrodução dos resíduos gerados em um novo ciclo produtivo.

 

Atualmente, o sistema global de produção de alimentos é responsável por 26% das emissões de gases de efeito estufa registradas no planeta, segundo dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Reduzir esse impacto depende de uma série de fatores, passando por ações enfáticas de prevenção ao desmatamento ilegal até formas de produção e distribuição que gerem ganhos ambientais e operacionais para a indústria.

 

Por exemplo, hoje quase a metade do impacto climático em nossa cadeia de valor vem da operação dos equipamentos que entregamos aos nossos clientes em todo o mundo. Paulatinamente, temos desenvolvido soluções de processamento e envase capazes de reduzir o consumo de energia, água e insumos dessas máquinas, consequentemente elevando a eficiência operacional e ambiental da indústria alimentícia. Como um dos resultados disso, temos como meta zerar o nível de emissões na cadeia de valor da qual fazemos parte até 2050 (em nossas operações, temos como meta atingir o mesmo objetivo até 2030).

 

No que diz respeito à distribuição, algumas empresas já utilizam carros e caminhões elétricos em sua frota como forma de reduzir a sua pegada ambiental (uma opção interessante no Brasil, se considerado que mais de 80% da nossa matriz elétrica é composta de fontes renováveis).

 

Ao abordar a contribuição da indústria de alimentos e bebidas para os problemas que enfrentamos hoje relacionados à sustentabilidade, não busco apontar culpados. Mas é preciso ter bastante claro que da mesma forma que somos parte do problema, também somos parte da solução. Em um movimento em cadeia, precisamos trabalhar junto aos nossos clientes e fornecedores em alternativas que preservem a natureza e seus recursos.

 

Isso não significa o abandono de esforços realizados nos últimos anos em relação à reciclagem – este continuará sendo um tema importante e cada vez mais cobrado por consumidores em todo o mundo. Contudo, é necessário exercitar uma visão mais abrangente sobre a sustentabilidade e seus impactos para o planeta, para os consumidores e para as empresas. Como parceiros da indústria, estabelecemos este compromisso como uma prioridade de negócio.

 

Marcelo Queiroz é presidente da Tetra Pak Brasil

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