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Bebidas destiladas brasileiras fazem parte de um mercado marcado pelo preconceito

Mesmo diante de uma realidade de pouca valorização pelo consumidor brasileiro, produtores de bebidas nacionais destiladas garantem que veem futuro para esse segmento

Foto: Getty Images

 

Levantamento realizado pela Synapcom, empresa líder em inteligência de mercado especializada em e-commerce, indica que o segmento de vendas on-line de bebidas alcoólicas aumentou 960% em volume em todo o mundo no período de março a outubro de 2020. Entretanto, em meio a esse cenário de expansão incentivado pela necessidade da prática do distanciamento social em decorrência da pandemia de Covid-19, estudo da Nielsen aponta que, quando se trata de bebidas destiladas, apenas 15% dos brasileiros, dão preferência para comprar produtos de marcas nacionais.

 

Diante dessa realidade, quais têm sido os desafios dos produtores e vendedores de destilados nacionais para conseguirem conquistar de vez os brasileiros?  E as estratégias utilizadas por essas marcas nacionais com o objetivo de ganhar mercado frente às bebidas destiladas importadas, principalmente, agora, quando os brasileiros estão comprando, cada vez mais, bebidas pela Internet devido à continuidade da pandemia?

 

Para responder essas perguntas, nada melhor do que os próprios produtores e vendedores de bebidas alcoólicas e gaseificadas nacionais, não é mesmo? Por isso, hoje, nós da Rede Food Service trazemos entrevista exclusiva com representantes das marcas nacionais Cavendish Rum, Microdestilaria Hof Ltda e Svarov Vodka.

 

Mercado marcado pelo preconceito

 

De acordo com Martin Bernhard Braunholz, proprietário da Microdestilaria Hof Ltda, o mercado nacional de bebidas destiladas pode ser considerado vítima de preconceito. “O grande público ainda não valoriza o produto nacional e acha o importado mais chique. Aliás, atualmente, grande parte das pessoas pede um gin tônica ainda sem nem mesmo definir com qual gin quer que seja elaborado o seu drink, deixando para o bartender escolher. O mesmo ocorre também com a caipirinha ou caipiroska. O público, em geral, no máximo, conhece a Absolut Vodka, sem mesmo ter comparado. A grande maioria acha que uma caipirinha pode e deve ser feita com Pinga 51, etc, e não com uma cachaça de alambique, que, inclusive, deixaria a caipirinha fantástica. No entanto, a cachaça artesanal vem sendo gradativamente valorizada, tanto que grandes marcas de aguardente industrial têm lançado versões exclusivas para não ‘perder o bonde’ das bebidas artesanais”, ressalta.

 

Martin Braunholz, proprietário da Microdestilaria Hof – Foto: Divulgação

 

Joseph Van Sebroeck, empresário e proprietário da Destilaria Dona Filó, detentora da marca Cavendish Rum, afirma que o brasileiro ainda acha que bebidas destiladas importadas possuem mais qualidade e valor. “A maioria ainda acredita nisso. A falta de informação, na minha opinião, é a maior razão disso ainda existir. Vejo muita gente comprando uísque importado a preços mais altos, achando que está investindo em qualidade, sendo que, na verdade, temos cachaças e rums nacionais envelhecidos que nos trazem qualidade química e sensorial muito superiores em relação às marcas importadas mais vendidas no Brasil. Acredito que já foi pior, mas, o preconceito ainda existe, principalmente, em relação à cachaça, que ainda carrega o estigma de ser uma bebida de má qualidade e que causa problemas de saúde e sociais. Sou a terceira geração de uma família que produz cachaça há mais de 60 anos. Eu lancei o Cavendish Rum há menos de um ano e já vendi muito mais do que as marcas de cachaça que possuo há muito mais tempo, por exemplo. O rum tem tido uma boa aceitação e valorização no mercado, pois realizamos um trabalho de contar a nossa história e mostrar como é feito, sempre procurando cuidar dos mínimos detalhes desde a produção, até a embalagem. Isso traz mais credibilidade ao produto e o torna mais atraente por meio do apelo de valorização do produto regional”, diz.

 

Fernando Miguel, Diretor Técnico da Svarov Vodka – Foto: Divulgação

 

Fernando Miguel, Diretor Técnico da Svarov Vodka, por sua vez, partilha que “não vejo preconceito do mercado quando o assunto é destilado, visto que, o mercado brasileiro é um grande consumidor de bebidas destiladas. O que há é um preconceito quando o assunto é bebida destilada nacional. Isso ocorre devido à cultura da década de 80 de que o importado é melhor. Mas, o que pouca gente sabe é que, o Brasil tem insumos de alta qualidade para se produzir bebidas destiladas, muitas vezes, melhores do que as importadas. O brasileiro ainda acha que a bebida destilada possui mais qualidade por acreditar que a qualidade da bebida produzida fora do Brasil é melhor, o que, muitas vezes, não é verdade! Existem bebidas de toda qualidade no mercado mundial, não só no Brasil. E uma das razões que o consumidor acredita na qualidade é a questão do preço, quanto mais cara melhor, e, muitas vezes, isso não é verdade”, esclarece.

 

Bebidas nacionais destiladas x pandemia de Covid-19

 

Apesar do mercado nacional de bebidas destiladas ainda sofrer certos preconceitos, os empresários entrevistados garantem que isso não vem atrapalhando diretamente o seu desenvolvimento e futura quebra desse paradigma, principalmente, em decorrência dos efeitos da atual pandemia de Covid-19

Segundo Braunholz, da Microdestilaria Hof Ltda, “o mercado de bebidas vem sofrendo mudanças interessantes. Há uma valorização gradativa dos produtos nacionais, principalmente, em relação à cachaça artesanal e nos gins. Mas, bebidas em geral ainda sofrem preconceito de grande parte dos consumidores. Está enraizado no Brasil que o que é importado é melhor, mesmo que saibamos que há produtos bons e ruins em toda a parte, mesmo no exterior”, avalia. Entretanto, para Sebroeck, da Destilaria Dona Filó, “o mercado de bebidas nacionais destiladas é desafiador, mas com muito potencial de crescimento, pois, na minha avaliação, existe uma tendência de valorização dos produtos regionais que se deve a preocupação do setor em investir em produtos de qualidade, com boa apresentação e melhores estratégias de marketing”, analisa.

Miguel, da Svarov Vodka, frisa que “houve uma mudança no mercado de bebidas destiladas nacionais em razão da pandemia de Covid-19 na forma de consumo. Antes, havia um consumo em diversos lugares e praticamente sem restrição, desde festas sofisticadas até mesmo em postos de gasolina, o que, agora, não é mais possível. Por isso, o mercado atual teve que se adaptar, priorizando o consumo mais restrito na maioria das vezes em casa. Ao contrário do que se imaginava, não houve declínio e sim aumento de consumo de bebidas. Assim, não vejo expectativas de mudanças nesse cenário de curto e médio prazo”, prevê.

 

Como vencer os desafios no atual cenário pandêmico?

 

Desde o começo da pandemia, é notório que crise, realmente, vem sendo sinônimo de oportunidade para muitos setores, com destaque para o ramo de alimentação fora do lar. E, especificamente no segmento de bebidas nacionais destiladas, não tem sido diferente. Prova disso é que, conforme Sebroeck, da Destilaria Dona Filó, a sua empresa teve “uma queda importante no início, pois o maior foco da destilaria sempre foram os bares e restaurantes, setor que foi muito impactado com as restrições impostas pelas autoridades públicas. Em contrapartida, tivemos um aumento maior nas vendas realizadas em empórios e supermercados, além das vendas on-line, com a qual tivemos maior demanda. De qualquer forma, o resultado final foi de queda de vendas e desaceleração do mercado. Mas, o enfrentamento de tudo, principalmente em relação aos produtos nacionais, se faz com educação e informação por meio de estratégias de marketing assertivas, além de investimento em qualidade no processo de produção para entregar um produto que supere as expectativas do consumidor”, indica.

 

 

Braunholz, da Microdestilaria Hof Ltda, partilha que, com a pandemia, “tivemos um incremento impressionante no ano de 2020. Estamos seguros em afirmar que a pandemia fez com que se bebesse mais em casa, o que resultou em um mercado com suas vendas aumentadas durante esse período de distanciamento social. O mercado virtual propiciou isso. Em nosso caso, mesmo tendo apenas colocado nossa loja on-line no ar só no finalzinho do ano passado, as vendas se elevaram de forma importante. E, para vencer o preconceito ainda existente, a degustação vem sendo um trunfo muito grande. Quem experimenta, constata o elevado padrão de qualidade de nossas bebidas. Assim, o ingresso para visitação e degustação na destilaria não é cobrado e promovemos, sempre que possível, a degustação dos nossos destilados, além de submetê-los constantemente a concursos de qualidade nacionais e internacionais, outro apelo mercadológico forte e que distingue uma bebida de outra”, aconselha.

 

Miguel, da Svarov Vodka, por fim, divide que, mesmo com a pandemia, “as vendas continuaram, o que mudou foi a questão do consumo e o local de compra. Um exemplo disso são as empresas que organizam festas de casamento, que é um nicho de mercado robusto que, com o Covid-19, praticamente, parou as suas atividades. Esse público migrou para a compra nos autosserviços e até mesmo compra de bebida on-line. Para vencer os preconceitos, o primeiro passo da Svarov Vodka é enfrentar isso ao produzir uma bebida que, em termos de qualidade, compete somente com as vodkas importadas. Fazemos campanha mostrando ao nosso cliente que nós brasileiros somos capazes de produzir qualquer bebida com alto índice de aceitação e qualidade e que somos um país riquíssimo quando os assuntos são insumos, destilação e a produção em si dessas bebidas. Há muitos anos, produzimos matérias-primas de alto nível em diversos setores, inclusive, no setor de bebida destilada”, garante.

Escrito por #molongui-disabled-link

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