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Farinha + água + sal + distanciamento social = ‘pãodemia’

Em tempos de pandemia de Covid-19, aprender, fazer e/ou vender pão tem sido a nova febre mão na massa entre os brasileiros

Pão e Foto de Camila Brogliato Ribeiro, Jornalista especialista em Marketing Digital e Padeira nas horas vagas

 

Mais tempo livre em casa em decorrência do necessário distanciamento social com a atual pandemia de Covid-19, um pouco de farinha, água e sal. Essa tem sido a receita que muitos brasileiros estão seguindo para superar os desafios do ‘novo normal’, incluindo a possibilidade de criação de uma nova renda ao entrarem no mercado food service por meio da prática da chamada ‘pãodemia’. Afinal, aprender, fazer e/ou vender pão é a nova febre mão na massa no Brasil, que, desde o ano passado, passou a ‘batizar’ esse novo gosto e interesse comercial pelos pães, em especial os caseiros, de ‘pãodemia’.

 

De acordo com pesquisa realizada pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), só na cidade de São Paulo, capital, mais de 4.500 pessoas resolveram investir na venda de pães durante a quarentena entre os meses de janeiro a junho de 2020, sendo que esse número representa uma alta de 90% em comparação com o mesmo período de 2019. Além disso, também durante o ano passado, a busca na Internet por alguma receita caseira de panificação cresceu inacreditáveis 300% e pelo termo ‘como fazer pão’ 72%. Assim como, ao entrar em qualquer mídia social hoje em dia, ainda é bastante notável o aumento de postagens com fotos de pães caseiros nas timelines.

 

Nesse novo cenário do mercado da panificação, fica a pergunta: o que motivou e vem alimentando essa tal de ‘pãodemia’?

 

De acordo com Jacqueline da Silva Almeida, Coordenadora Pedagógica Nacional do Instituto Gourmet, maior rede de franquias de cursos profissionalizantes na área de Gastronomia do país, “os brasileiros tiveram que se reinventar de maneira muito rápida nesta pandemia. Na hora do aperto, todo mundo se uniu para vencer a crise juntos e exatamente por isso que o perfil multiformatos e multinegócios da panificação e a grande capacidade de adaptação fez com que 2021 seja o ano delas. O delivery, até então um canal não tão interessado no setor de panificação, resolveu valorizar e olhar para esse grande negócio. Um dos principais aplicativos de entrega divulgou uma pesquisa que indica que o maior incremento do delivery foi no período da manhã, muito impulsionado pelo café da manhã das padarias. Houve ainda uma mudança considerável no perfil do cliente. As mudanças de hábitos dos consumidores, como o desejo de fazer compras de vários e pequenos produtores de pães e a busca crescente por produtos saudáveis, alavancou de forma considerável as vendas de pães. Aquele velho modelo de padaria tradicional, com pães considerados ‘pobres’ em nutrientes, sem graça e com doces muito doces de bases mais básicas, vai continuar existindo, mas vem deixando de crescer como antes. É certo e claro que não podemos fechar os olhos para esse novo mercado. A ‘pãodemia’ é uma grande oportunidade de transformação do mercado”, explica.

 

Jacqueline da Silva Almeida, Coordenadora Pedagógica Nacional do Instituto Gourmet

 

Almeida ressalta que, aproveitando a febre do pão caseiro, o Instituto Gourmet vem apostando em seu curso de Padeiro Profissional, que visa capacitar o aluno para o mercado de trabalho inserindo conhecimentos numa área tradicional e crescente. “Atualmente, 33 unidades da rede já possui o curso, que conta com nove módulos por meio dos quais os alunos aprendem técnicas de panificação e seus conteúdos, panificação tradicional, especial, enriquecida, internacional, fermentação natural, manipulação, preparação de ingredientes para a panificação, noções de segurança e higiene na cozinha, formas de evitar a contaminação dos alimentos e empreendedorismo”, detalha.

 

Mais que um ganha pão

 

Camila Brogliato Ribeiro, Jornalista especialista em Marketing Digital e Padeira nas horas vagas, acredita que a ‘pãodemia’ também é fruto de uma tradicional paixão do brasileiro pelo pão, tendo surgido ainda como mais do que uma nova oportunidade de renda, já que enxerga esse novo fenômeno como uma forma que a população encontrou de suavizar os problemas gerados pelo distanciamento social e a nova rotina home office.  “Eu, por exemplo, comecei a me aventurar nos pães há um tempão. Acho que nos anos 2000, mas eram os feitos com fermento biológico. Com o tempo, eu não dei continuidade. Só fui me apaixonar de novo quando conheci os pães de fermentação natural, em 2018, e, desde então, faço pão sempre. Seja para vender ou para consumo próprio, faço pão até para presentear alguns amigos que sei que são malucos por pão. Mas, com o tempo maior em casa, as pessoas começaram a querer aprender coisas novas. Com a dificuldade de sair para comer, de frequentar lugares que servissem comida, fazer pão virou um evento social em casa. Para acompanhar qualquer prato, o pão é muito bem-vindo e acredito que essa versatilidade, aliada à ideia de fazer algo produtivo no seu dia, fez essa ‘pãodemia’ começar com força. Mas, reforço que não acho que veio do nada. Já tem um tempo que as pessoas estão se voltando para hábitos mais saudáveis e pesquisando sobre essas receitas por aí. Eu comecei a fazer em 2018, muito antes de qualquer pandemia começar, e já tinha uma galera fazendo por aqui”, pontua.

 

Camila Brogliato Ribeiro, Jornalista especialista em Marketing Digital e Padeira nas horas vagas

 

Ribeiro acrescenta que, na sua opinião, “muita gente ainda vai descobrir que fazer pão é uma terapia também. Não precisa virar profissão, mas, talvez, você sinta prazer em fazer pão para outras pessoas.  O pão aproxima as pessoas. E é uma arte a partir do momento que você se propõe a estudar e se aprofundar no assunto. Eu só faço pães de levain, porque acredito muito que eles são mais saudáveis para a gente. E eu busco ter uma alimentação mais saudável e consciente. Por isso, incentivo que as pessoas pesquisem e procurem saber sobre a fermentação natural.  Como ganha pão, acho que o alimento também pode ser um dinheiro extra em qualquer situação. Acredito que todo mundo gosta de pão. E, com criatividade, a gente consegue encontrar caminhos para oferecer produtos e ter pessoas interessadas em consumi-lo. Primeiro, se for por prazer, não por retorno financeiro, pois eu acredito que, para fazer pão artesanal, tem que gostar muito de fazer, porque, caso contrário, você não vai ter muita paciência para esperar todos eles ficarem prontos. Mas, dá sim para criar um negócio em torno do pão. E é isso que estou tentando fazer aos poucos. Um hobby extra que, logo, vire meu ganha pão”, revela.

 

Para todos ou não?

 

Outro ponto que tem feito com que a ‘pãodemia’ tome cada vez mais força em todo o país é o fato de que o pão trata-se de uma receita muito democrática. “Pão combina com tudo, com qualquer ocasião e com qualquer tipo de prato/acompanhamento. Combina com vinho, com cerveja, com petiscos, com praia, com campo. Combina com um jantar entre amigos e também para presentear alguém. É democrático porque leva basicamente farinha, água e sal. E, por isso, acho que nunca perdeu espaço. Sempre tem padarias por aí. Em todos os lugares, as pessoas adoram comer um pãozinho de entrada e até para raspar o prato no fim de uma macarronada original”, afirma Ribeiro.

 

Pão preparado no curso de Padeiro Profissional do Instituto Gourmet

 

Porém, a Padeira alerta que a arte de produzir pão já não é algo tão para todos assim. “Fazer pão é algo para todos, mas só acerta quem tem humildade para pesquisar, para testar e para aceitar alguns pães darem errado no caminho. Tem que ter autoestima e coragem para saber abusar do forno caseiro e caramelizar a casca. Um pouco de ousadia para misturar uns ingredientes e testar receitas novas. E é muito bacana você abrir o forno, sentir o cheirinho de pão no ar e saber que ali tem tudo que você escolheu, do jeito que você gosta. Além de ser prazeroso ver alguém consumindo uma receita feita por você. Mas, é uma das receitas em que o tempo é a parte principal da equação. No caso do fermento natural, que são os pães que eu faço, por exemplo, é preciso paciência e planejamento para fazer o pão e não ser um trabalho chato. Algumas receitas demoram mais de 24h para ficarem no ponto de assar. A gente usa a geladeira para tentar padronizar o tempo de fermentação, mas, como é um processo artesanal, tudo tem influência: o forno, a temperatura ambiente, você… Talvez por isso, as pessoas tenham um certo receio. Mas, quando você coloca a mão na massa, vê que é trabalhoso, mas que não é difícil, a cada nova fornada, você vai chegando no seu melhor pão. E sempre dá para melhorar, assim como tem algo novo para a gente aprender sobre essa arte”, indica.

 

Pães e Fotografia de Camila Brogliato Ribeiro

 

Almeida, por sua vez, frisa que “a arte da panificação é complexa e deve ter a estrutura teórica e prática de todos os seus processos. O mercado de pães está completamente em expansão. O público está criando o hábito da panificação artesanal, agregando valor aos pequenos produtores. Está ocorrendo uma verdadeira descoberta e valorização da panificação. Por isso, estamos em um processo crescente da valorização dessa arte. Portanto, viva essa delícia! É uma experiência muito gratificante”, garante.

 

Quer fazer parte da ‘pãodemia’?

 

E aí? Que tal correr para a cozinha agora mesmo e colocar a mão na massa ao se arriscar a fazer e/ou vender pão? Nós da Rede Food Service te deixamos esse convite de fazer parte da ‘pãodemia’! Como?

 

Comece acessando o perfil no Instagram de Ribeiro (@breadsocialclub), que acaba de lançar, pela plataforma digital do Atelier Gourmand, um e-book que ensina a fazer pães artesanais coloridos. “Dá para criar infinitas receitas e experimentar adicionar ingredientes, como vegetais e frutas, para dar mais cor e sabor aos pães de todo dia. Pensando nisso, elaborei receitas de pães coloridos, em formatos diferentes, rústicos, feitos com fermento natural. As possibilidades são infinitas”, enfatiza.

 

Ao todo, no e-book, há 18 receitas de pães de levain coloridos naturalmente da Jornalista. Ou se preferir, clique aqui e assista ao vídeo de uma das receitas de Ribeiro: pão de levain e cenoura.

Escrito por #molongui-disabled-link

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